
O governo da Indonésia mantém a revisão de atividades de mineradoras e plantações em bacias hidrográficas de Kalimantan do Sul, na parte sul de Bornéu, meses após as enchentes registradas no fim de dezembro de 2025 afetarem quase 290 mil pessoas na província. A medida foi informada por uma porta-voz do Ministério do Meio Ambiente e ocorre após a inundação atingir 11 dos 13 municípios e cidades da região, em um contexto de recorrência anual de cheias e de debate sobre os efeitos de mudanças no uso da terra sobre a drenagem natural.
Para o leitor brasileiro, o caso chama atenção por envolver fiscalização sobre desmatamento, mineração e ocupação de áreas sensíveis de drenagem, temas que também aparecem com frequência em discussões ambientais e de prevenção de desastres no Brasil. A Indonésia é um dos principais produtores mundiais de óleo de palma e carvão, e decisões sobre uso da terra no país costumam repercutir no debate internacional sobre florestas tropicais e regulação ambiental.
De acordo com informações da Mongabay Global, a auditoria segue em andamento. A porta-voz do ministério, Yulia Suryanti, afirmou à publicação que “a auditoria ainda está em andamento”, indicando que o processo de apuração sobre empresas que atuam nas áreas de captação de água continua meses depois das enchentes.
Por que Kalimantan do Sul sofre com enchentes recorrentes?
Kalimantan do Sul é uma das cinco províncias indonésias na ilha de Bornéu e é considerada especialmente vulnerável a enchentes durante a principal estação chuvosa da região. Em 2021, grandes inundações deixaram ao menos 35 mortos e destruíram mais de 100 mil casas. Segundo dados mais recentes citados pela reportagem, a população provincial era de quase 4,4 milhões de habitantes no censo de 2020, e as cheias iniciadas em dezembro de 2025 afetaram mais de 7% desse total.
Organizações da sociedade civil e pesquisadores afirmam que a perda de cobertura florestal nas bacias dos rios Barito e Maluka reduziu a capacidade do solo de absorver e drenar a água, aumentando o escoamento superficial. O rio Barito é o segundo mais longo de Bornéu, atrás apenas do Kapuas. Para essas entidades, a degradação das áreas de captação ajuda a explicar por que grandes porções de assentamentos são inundadas todos os anos.
Anggi Prayoga, da Greenpeace Indonésia, afirmou que houve ampla perda de cobertura florestal, especialmente nas porções média e baixa da bacia do Barito. Já Fatimattuzahra, chefe do departamento florestal de Kalimantan do Sul, disse que é difícil atribuir a enchente a um único fator.
O que o governo indonésio está investigando nas bacias hidrográficas?
Em 30 de dezembro de 2025, o ministro do Meio Ambiente da Indonésia, Hanif Faisol Nurofiq, visitou uma vila fortemente inundada no distrito de Banjar. Na ocasião, ele disse que o ministério havia reunido dados sobre empresas suspeitas de violar normas ao desmatar grandes áreas e que a equipe de fiscalização ainda investigava o caso.
“O Ministério do Meio Ambiente reuniu dados sobre várias empresas suspeitas de violar regulamentos ao desmatar grandes áreas de terra, e a equipe de fiscalização ainda está investigando.”
“A mudança climática é real, e nós precisamos proteger nosso meio ambiente.”
A agência nacional de gestão de desastres da Indonésia, a BNPB, não registrou mortes nas enchentes mais recentes, mas a repetição anual e a abrangência dos alagamentos levaram o governo a iniciar a revisão das empresas instaladas em áreas de captação.
Antes disso, em setembro de 2025, meteorologistas da agência nacional de clima, a BMKG, haviam projetado o início antecipado da principal estação chuvosa, com pico em dezembro em grande parte de Kalimantan do Sul. O monitoramento das estações é usado no país para orientar agricultores sobre o melhor momento de plantio.
Quais fatores especialistas e organizações relacionam ao agravamento das cheias?
Dados do Global Forest Watch citados na reportagem indicam que Kalimantan do Sul perdeu 13% de sua floresta primária entre 2002 e 2024, somando-se ao desmatamento já ocorrido na segunda metade do século 20. A Greenpeace defende que o governo revise todas as licenças florestais e de uso da terra na província e recupere paisagens consideradas críticas.
Segundo análise da organização, menos de 1% dos 88 mil hectares da bacia do rio Maluka ainda permanece como floresta natural. A entidade também apontou que mais da metade da porção da bacia do Barito situada em Kalimantan do Sul estava coberta por diferentes permissões comerciais, incluindo plantações de dendê e minas.
- Perda de cobertura florestal em áreas de nascente e ao longo das bacias
- Redução da capacidade do solo de reter água
- Aumento do escoamento superficial
- Expansão de empreendimentos em áreas de drenagem natural
- Chuvas intensas combinadas com maré alta, dificultando o escoamento
Respati Bayu Kusuma, da Forest Watch Indonesia, afirmou que a destruição florestal tem implicações diretas sobre as condições das bacias hidrográficas. Já Badaruddin, cientista da paisagem da Universidade Lambung Mangkurat, disse que o avanço da construção também danificou canais naturais de drenagem. Segundo ele, quando chuvas fortes coincidem com maré alta, a água não encontra saída nas áreas residenciais.
O que pode acontecer após a revisão das empresas?
Após as enchentes fatais de 2021, a BNPB já havia pedido um estudo abrangente sobre as causas das inundações em Kalimantan do Sul. Cinco anos depois, o governo provincial continua defendendo uma análise detalhada e multidisciplinar para compreender o problema. Fatimattuzahra disse que esse estudo precisa envolver diferentes áreas científicas e partes interessadas.
Muhammad Pazri, advogado em Kalimantan do Sul, afirmou esperar que o governo conduza uma investigação aprofundada sobre as empresas da região e adote medidas legais quando houver fundamento. Segundo ele, isso pode incluir sanções administrativas, ações civis ou processo criminal.
Até o momento, a reportagem informa apenas que a auditoria segue em andamento, sem detalhar conclusões ou medidas já adotadas pelo governo indonésio.