Mais da metade das escolas de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, está situada em áreas com alta concentração de estabelecimentos que vendem predominantemente alimentos ultraprocessados, segundo estudo de pesquisadoras da UFMG publicado na sexta-feira, 27 de março de 2026, na revista Ciência & Saúde Coletiva. A pesquisa analisou 222 escolas urbanas com dados de 2019 e concluiu que 52,7% delas estão em chamados “pântanos alimentares”, ambientes marcados pela oferta de produtos baratos, prontos para consumo e de baixo valor nutricional. De acordo com informações da Agência Bori, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas para regular a oferta e a publicidade de alimentos no entorno escolar. O tema tem alcance nacional porque a alimentação escolar e a prevenção da obesidade infantil integram a agenda de saúde pública no Brasil, e pesquisas sobre o ambiente alimentar ajudam a orientar ações municipais e estaduais em diferentes cidades.
O estudo avaliou escolas que ofereciam educação infantil, ensino fundamental ou ensino médio. As informações sobre localização e características das unidades foram obtidas em bases oficiais da Secretaria Estadual de Educação. Já os estabelecimentos comerciais do entorno foram identificados e classificados conforme o tipo de alimento comercializado, com foco na predominância de produtos ultraprocessados.
O que são os chamados pântanos alimentares?
Segundo a pesquisa, pântanos alimentares são áreas com grande densidade de comércios que ofertam alimentos não saudáveis, em geral ultraprocessados. Entre os exemplos citados estão biscoitos recheados, salgadinhos e refrigerantes, produtos associados a padrões alimentares piores e a maior risco de problemas crônicos de saúde, como obesidade e diabetes.
As autoras destacam que esse tipo de ambiente alimentar pode influenciar escolhas cotidianas, especialmente entre crianças e adolescentes que frequentam escolas localizadas nessas regiões. O trabalho também aponta que o problema não se restringe a capitais e aparece de forma relevante em um município de grande porte como Betim, com mais de 400 mil habitantes. Isso amplia o peso do estudo para além de Minas Gerais, ao indicar que cidades médias e grandes fora das capitais também podem enfrentar desafios semelhantes no entorno de escolas.
Como a renda das regiões influenciou os resultados?
A análise identificou diferenças no padrão de oferta de alimentos conforme o nível de renda dos territórios. Nas áreas de maior renda, as escolas apresentaram maior disponibilidade de restaurantes, bares, lanchonetes e comércios de doces, além de maior concentração de estabelecimentos com venda predominante de ultraprocessados.
Já nas áreas de menor renda, houve maior presença de minimercados e mercearias e menor diversidade de estabelecimentos. Apesar dessas diferenças, o estudo não encontrou variações estatisticamente significativas entre escolas públicas e privadas em relação à presença de pântanos alimentares.
O que o estudo concluiu sobre escolas públicas e privadas?
De acordo com a pesquisa, a exposição ao ambiente alimentar desfavorável parece estar mais ligada às características do território do que à natureza administrativa da escola. Isso significa que o tipo de entorno pesa mais do que o fato de a instituição ser pública ou privada.
A nutricionista Luana Lara Rocha, doutora em Saúde Pública pela UFMG e uma das autoras do estudo, afirmou que a investigação ajuda a preencher uma lacuna na produção científica nacional sobre ambiente alimentar escolar fora das capitais.
“Existe uma lacuna importante na literatura nacional. Ao investigar uma cidade de grande porte que não é capital, conseguimos produzir evidências mais representativas da realidade urbana brasileira”, afirma.
Segundo a pesquisadora, os achados de Betim se aproximam dos resultados observados em capitais como Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.
“Betim não representa um caso isolado. O que observamos é um padrão urbano mais amplo, marcado pela forte presença de estabelecimentos que favorecem o acesso a ultraprocessados nas proximidades das escolas”, ressalta Rocha.
Quais medidas os resultados indicam?
Os resultados reforçam a necessidade de ações articuladas entre saúde, educação alimentar, planejamento urbano e regulação do comércio de alimentos no entorno escolar. O objetivo, segundo o texto, é criar ambientes mais saudáveis para crianças e adolescentes.
Entre os pontos destacados pelo estudo estão:
- regulação local da oferta de alimentos no entorno escolar;
- regras sobre publicidade de produtos alimentícios nessas áreas;
- incentivo à educação alimentar;
- estratégias de prevenção da obesidade infantil.
A pesquisa foi coordenada por Larissa Loures Mendes, líder do Grupo de Estudos, Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde da UFMG. De acordo com a publicação, os resultados já foram apresentados à gestão municipal de saúde de Betim para contribuir com o debate sobre promoção da alimentação saudável no município.
