Um estudo sobre a comunicação dos cachalotes concluiu que as vocalizações desses mamíferos marinhos apresentam paralelos próximos com a linguagem humana, com estruturas descritas como altamente complexas. A pesquisa, divulgada em 15 de abril e repercutida pelo Guardian Environment, analisa os chamados “codas”, séries de cliques curtos emitidos pelos animais no oceano, e aponta semelhanças com aspectos fonéticos e fonológicos da fala humana. De acordo com informações do Guardian Environment, os pesquisadores identificaram padrões comparáveis aos de idiomas humanos e sugerem que essa complexidade pode ter evoluído de forma independente.
Segundo o texto, os cachalotes compartilham um ancestral comum com os humanos há mais de 90 milhões de anos, mas, ainda assim, suas formas de comunicação revelam semelhanças surpreendentes. O estudo afirma que os animais têm uma espécie de “alfabeto” e formam sons comparáveis a vogais dentro de suas vocalizações. A análise indica que esses sons podem ser diferenciados por cliques mais curtos ou mais longos, além de variações de tom ascendentes ou descendentes.
Como os pesquisadores descreveram a comunicação dos cachalotes?
Os cachalotes se comunicam por meio de sequências de cliques curtos conhecidas como codas. Ao examinar esse material sonoro, os pesquisadores concluíram que a estrutura dessas vocalizações tem paralelos próximos com a fonética e a fonologia das línguas humanas. O artigo científico, publicado na revista Proceedings B, descreve essas vocalizações como altamente complexas e entre os exemplos mais próximos da fonologia humana já observados em sistemas de comunicação animal.
O trabalho foi liderado por Gašper Beguš, linguista da University of California, Berkeley. De acordo com o relato, ele afirmou que o nível de complexidade observado na comunicação dos cachalotes supera o que havia estudado em outros animais, como papagaios e elefantes. Para os autores e especialistas citados, isso reforça a ideia de que, apesar das diferenças entre humanos e cetáceos, há elementos estruturais em comum na maneira como sinais sonoros podem ser organizados.
O que o Projeto CETI está investigando?
A descoberta é mais um resultado do Project CETI, sigla para Cetacean Translation Initiative, organização que pesquisa cachalotes na costa da Dominica com o objetivo de compreender o que esses animais comunicam. O texto informa que, no mês anterior, o projeto divulgou imagens de um parto de cachalote acompanhado por outros indivíduos do grupo, em um comportamento de apoio.
David Gruber, fundador e presidente do Project CETI, afirmou que a descoberta representa mais um momento de humildade para os humanos ao mostrar que não somos a única espécie com vida comunicativa, comunitária e cultural rica. Ele também disse que esses animais podem estar transmitindo informações entre gerações há mais de 20 milhões de anos e que os humanos só agora dispõem de ferramentas e interesse suficientes para observar essa complexidade.
“I think it’s another humbling moment that we’re not the only species with rich, communicative, communal and cultural lives,” said David Gruber, founder and president of Project CETI.
Por que estudar esses animais é tão difícil?
O acompanhamento dos cachalotes impõe desafios logísticos porque eles mergulham em grandes profundidades por até 50 minutos em busca de lulas e voltam à superfície por cerca de dez minutos de cada vez. Segundo Gruber, é justamente perto da superfície que os animais mantêm interações mais próximas, com as cabeças muito próximas umas das outras, em momentos descritos por ele como uma espécie de conversa.
Para os ouvidos humanos, essa comunicação pode soar como um código Morse em staccato. No entanto, ao retirar os intervalos entre os cliques, os pesquisadores encontraram padrões que, segundo o estudo, lembram a fala humana. O texto afirma que, assim como pessoas alteram a produção vocal para transformar um som em outro, os cachalotes conseguem modular sons comparáveis a vogais para produzir significados diferentes.
O que especialistas dizem sobre o alcance da descoberta?
Mauricio Cantor, ecólogo comportamental do Marine Mammal Institute e não envolvido diretamente na pesquisa, afirmou que o novo estudo mostra que a comunicação dos cachalotes não se resume a padrões de cliques, mas envolve múltiplas camadas estruturais em interação. Na avaliação dele, o trabalho ajuda a revelar uma organização desses sinais que ainda não era plenamente compreendida.
O Guardian informa ainda que o Project CETI estabeleceu como meta compreender 20 expressões vocalizadas diferentes nos próximos cinco anos, associadas a ações como mergulhar e dormir. A possibilidade de entender integralmente o que os cachalotes dizem, ou até estabelecer algum tipo de comunicação mais direta com eles, ainda é tratada como um objetivo de prazo mais longo.
- O estudo analisou os “codas”, séries de cliques curtos dos cachalotes.
- Os pesquisadores identificaram estruturas comparáveis a vogais e variações de tom.
- O artigo foi publicado na revista Proceedings B.
- O Project CETI quer compreender 20 expressões vocalizadas em cinco anos.
Embora a compreensão total dessa linguagem ainda esteja distante, o estudo amplia o debate científico sobre a sofisticação da comunicação animal e sobre o uso de tecnologia, incluindo inteligência artificial, para investigar sistemas sonoros complexos no ambiente marinho.