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Barcos abandonados em Cornwall liberam fibra de vidro e contaminam rios e mares

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Barcos abandonados em enseadas de Cornwall, no sudoeste da Inglaterra, estão se deteriorando e liberando fragmentos de fibra de vidro, plástico e outras substâncias na água, com potencial de dano à vida marinha. O problema atinge áreas dos rios Helford e Fal, onde o engenheiro naval Steve Green, da organização Clean Ocean Sailing, atua para retirar embarcações deixadas para apodrecer. De acordo com informações do Guardian Environment, Green tenta remover 166 iates de fibra de vidro abandonados na região.

A reportagem descreve que essas embarcações, muitas delas compradas nas décadas de 1960 e 1970, chegaram ao fim da vida útil sem que exista um plano claro de descarte. Ao serem deixadas em canais e enseadas, elas podem liberar tinta à base de resina, óleo e, sobretudo, lascas de fibra de vidro. O trabalho de retirada é feito de forma artesanal, com ajuda de voluntários, pequenas doações, financiamento coletivo e o uso de uma velha van Volkswagen de 1972, apelidada de Cecil.

Por que os barcos abandonados preocupam pesquisadores e ambientalistas?

Segundo a bióloga marinha Corina Ciocan, da Universidade de Brighton, a maior preocupação está na decomposição da fibra de vidro. A pesquisadora afirmou que o material se fragmenta em partículas que podem atingir mexilhões, ostras, algas e ervas marinhas, entrando na cadeia alimentar. A reportagem informa que a equipe dela encontrou mais de 11 mil fragmentos de fibra de vidro por quilograma de carne de ostra no mar ao redor do porto de Chichester.

“We were stunned. It’s such a huge amount.”

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Ciocan também defende que embarcações abandonadas e em decomposição sejam classificadas como resíduo perigoso, e não apenas como lixo comum. Para ela, fabricantes de barcos deveriam ter responsabilidade sobre o destino da embarcação ao fim de sua vida útil.

Como Steve Green faz a remoção das embarcações?

Green, engenheiro naval da Cornualha, recolhe barcos descartados com estrutura simples e de baixo impacto, evitando o uso de maquinário pesado. A operação pode levar dias: primeiro, ele retira lixo, lodo e areia do casco; depois, esgota a água acumulada e tenta fazer a embarcação flutuar até um ponto onde possa ser içada para um reboque ou puxada rio acima até Truro.

O custo, porém, é alto. Um iate de 22 pés levado por Green a um centro de reciclagem em Truro acabou tendo como destino final o aterro. Pela reportagem, ele pagou £1.200 pelo descarte dessa embarcação, enquanto barcos maiores podem custar até £3.000 para serem descartados. Esse valor ajuda a explicar por que tantos proprietários abandonam os barcos em vez de assumir a responsabilidade pelo fim da vida útil.

  • Green coloca um aviso no barco abandonado e dá 30 dias para que o dono se apresente.
  • Em águas costeiras, não é necessário licenciamento, o que dificulta rastrear proprietários.
  • A organização Clean Ocean Sailing depende de doações, subsídios e voluntários.
  • No ano passado, Green acumulou £8.000 em cartões de crédito para bancar parte das remoções.

O que acontece com os proprietários e por que o problema persiste?

De acordo com a reportagem, muitos barcos passam de mão em mão por valores simbólicos, comprados por pessoas que alimentam o sonho de navegar, mas sem calcular os custos de manutenção, guarda e descarte. Um dos casos citados é o do Jehol, um Westerly Centaur dos anos 1970, que teria sido vendido quatro vezes por £1 e acabou abandonado após se tornar caro e trabalhoso demais para os donos.

Quando uma embarcação fica sem uso, a deterioração pode ser rápida. Coberturas rasgam, a água da chuva se acumula, partes estruturais se rompem e o casco passa a afundar ou tombar. Quando isso acontece, a retirada se torna mais cara e mais difícil. Autoridades portuárias locais, como as de Falmouth, relataram que precisam agir depressa para impedir que a situação se agrave.

“We can’t afford the fees for this, but we have no choice. We don’t want to sell [a boat] on cheaply and then see it reappear.”

Há modelos de solução para esse descarte?

Green defende que o Reino Unido siga um modelo semelhante ao da França. Segundo a reportagem, no sistema francês os fabricantes pagam uma contribuição ambiental por cada barco vendido, somada a um imposto anual cobrado dos proprietários, já que as embarcações precisam ser licenciadas. Esse fundo financia 35 centros gratuitos de desmontagem de barcos no país.

A Association pour la Plaisance Eco-Responsable, responsável por esses centros, retirou mais de 16 mil embarcações desde 2019, de acordo com o texto original. A proposta também inclui o reaproveitamento do maior número possível de componentes. Em Cornwall, Green tem catalogado peças dos barcos retirados para entender melhor o que pode ser recuperado e reutilizado.

Enquanto isso, o acúmulo de barcos descartados, plástico e resíduos continua nas margens e docas onde o material é depositado temporariamente até que haja recursos para o descarte. A reportagem aponta que, fora dos portos mais fiscalizados, enseadas escondidas e cursos d’água menos monitorados seguem concentrando o problema, sem solução estrutural definida até o momento.

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