O desperdício de nutrientes essenciais para a agricultura atingiu patamares críticos e gera um prejuízo bilionário para a economia global. Um levantamento detalhado revelou que o setor agrícola e urbano dos Estados Unidos descarta anualmente o equivalente a US$ 7 bilhões (aproximadamente R$ 35 bilhões) em fertilizantes em potencial. A pesquisa, que cruzou dados geográficos de produção de resíduos com as necessidades das safras, indica que o reaproveitamento de dejetos humanos e animais poderia suprir a demanda nutricional das plantações, mas esbarra em complexos desafios logísticos e de transporte.
De acordo com informações do/da Anthropocene, os pesquisadores conseguiram mapear com precisão onde os nutrientes são produzidos e onde eles são mais necessários no território norte-americano. O estudo, assinado pela especialista Emma Bryce, aponta que a quantidade de nitrogênio e fósforo presentes nos dejetos animais e no esgoto humano é suficiente para substituir uma parcela significativa dos fertilizantes sintéticos. Contudo, a falta de uma rede de distribuição eficiente impede que esses recursos cheguem às áreas de cultivo de forma economicamente viável.
Qual é o valor real do desperdício de nutrientes na agricultura?
O montante de R$ 35 bilhões representa não apenas uma perda financeira direta, mas também um custo ambiental elevado. Atualmente, a produção de fertilizantes sintéticos é um processo intensivo em energia e depende da mineração de recursos finitos. Enquanto isso, o excesso de nutrientes provenientes de dejetos não tratados acaba poluindo bacias hidrográficas. Os cientistas envolvidos no projeto destacam que o “casamento” entre a oferta de resíduos orgânicos e a demanda das lavouras é matematicamente perfeito em nível nacional, mas as distâncias geográficas criam um abismo entre esses dois pontos.
O mapeamento demonstrou que as grandes concentrações de gado e os centros urbanos densamente povoados são os maiores polos geradores desses nutrientes. No entanto, essas áreas geralmente estão localizadas longe dos cinturões agrícolas que mais necessitam de insumos. Essa desconexão geográfica exige uma infraestrutura de processamento e transporte que, no momento, não possui escala para competir com os preços dos fertilizantes convencionais, tornando o desperdício a opção mais barata para muitos produtores e municípios.
Como a logística impede a sustentabilidade do agronegócio?
A logística é apontada como o principal entrave para a economia circular no campo. O transporte de resíduos animais e humanos em sua forma bruta é inviável devido ao alto teor de água e ao volume massivo, o que encarece o frete. Para que o sistema funcione, seria necessário investir em tecnologias de desidratação e granulação que transformem esses resíduos em produtos concentrados e fáceis de manejar. Sem esse processamento intermediário, o custo para mover o fertilizante orgânico supera o valor de mercado do nutriente recuperado.
Os principais fatores que dificultam a integração desses nutrientes na cadeia produtiva incluem:
- A concentração geográfica de unidades de confinamento animal longe de zonas de cultivo;
- A ausência de sistemas de saneamento urbano capazes de separar e tratar nutrientes para fins agrícolas;
- O custo elevado de transporte para materiais de baixa densidade nutricional;
- A falta de incentivos fiscais para o uso de fertilizantes recuperados em comparação aos sintéticos.
É possível reverter o cenário de desperdício bilionário?
A pergunta que move os pesquisadores agora é se o sistema pode ser consertado a tempo de mitigar danos ambientais. A transição para um modelo sustentável exigiria mudanças políticas e investimentos pesados em bioeconomia. Conforme relatado no estudo da Anthropocene, a solução passa pela criação de microrregiões de processamento que possam transformar os dejetos locais em fertilizantes prontos para o uso em fazendas vizinhas, reduzindo drasticamente a necessidade de longos deslocamentos.
Embora os números teóricos confirmem a viabilidade da substituição, a prática exige uma coordenação entre governos estaduais, empresas de saneamento e o setor agropecuário. A recuperação desses R$ 35 bilhões anuais não é apenas uma questão de sustentabilidade ambiental, mas uma oportunidade estratégica para garantir a segurança alimentar e reduzir a dependência de insumos importados ou derivados de combustíveis fósseis.