Um novo estudo geológico revela que as placas tectônicas da Terra já se movimentavam ativamente há 3,5 bilhões de anos, durante o período conhecido como Éon Arqueano. A descoberta científica, publicada na revista Science em março de 2026, apresenta a evidência direta mais antiga desse fenômeno dinâmico na crosta terrestre. De acordo com informações da CNN Brasil, pesquisadores conseguiram rastrear a deriva continental primitiva analisando amostras de rochas muito antigas, o que ajuda a explicar como o planeta desenvolveu condições habitáveis para o surgimento da vida. Para o Brasil, o tema tem interesse científico mais amplo porque a tectônica de placas ajuda a explicar a formação dos continentes, das bacias sedimentares e do relevo estudados também pela geologia brasileira.
Até a divulgação desta pesquisa, a comunidade científica global debatia intensamente o momento exato do início da tectônica de placas. Enquanto alguns especialistas defendiam que o processo havia começado há 4,4 bilhões de anos, outros argumentavam que a movimentação das massas rochosas ocorria apenas no último um bilhão de anos. A Universidade de Harvard liderou a investigação que resolve parte desse mistério geológico milenar.
Como as placas tectônicas da Terra foram analisadas?
Para investigar o passado distante do planeta, os cientistas concentraram seus esforços no Cráton de Pilbara Oriental, uma formação geológica localizada na região ocidental da Austrália. O local é mundialmente reconhecido por abrigar algumas das rochas mais antigas do planeta e evidências fósseis de organismos primitivos. A equipe de pesquisa aplicou uma técnica conhecida como paleomagnetismo para desvendar os segredos guardados dentro das pedras antigas.
Minerais com propriedades magnéticas presentes nessas rochas funcionam como bússolas congeladas no tempo, registrando a inclinação das linhas do campo magnético terrestre no exato instante em que se formaram. Roger Fu, professor de ciências da Terra e planetárias da Universidade de Harvard, detalhou o processo de coleta e análise dos dados geológicos.
Nosso trabalho era basicamente medir esses grãos e ver qual era o alinhamento magnético dessas rochas. Você pode medir o ângulo entre a direção do campo magnético observado e a horizontal, e assim determinar se está perto dos polos ou perto do equador.
O estudo geológico envolveu etapas rigorosas de verificação para garantir a precisão dos resultados históricos:
- Coleta sistemática de 900 amostras de rochas na região australiana de Pilbara.
- Análise do material correspondente a um intervalo temporal de 30 milhões de anos.
- Comparação das inclinações magnéticas para calcular a taxa de deslocamento milimétrico do terreno.
O que a descoberta revela sobre a crosta terrestre primitiva?
Os resultados mostraram que um segmento específico daquela formação australiana mudou drasticamente de latitude geocêntrica. A estrutura geológica migrou de 53 graus para 77 graus ao longo de vários milhões de anos. Esse trajeto representa um deslocamento contínuo de dezenas de centímetros anualmente, acompanhado por uma rotação superior a 90 graus no sentido horário. Tais números comprovam uma dinâmica crustal muito superior a um simples assentamento do terreno local.
Paralelamente, os investigadores examinaram dados paleomagnéticos de uma segunda localidade importante, o Cinturão de Rochas Verdes de Barberton, situado no território da África do Sul. Ao contrário da porção australiana, o bloco geológico sul-africano permaneceu praticamente imóvel em uma latitude mais baixa durante a mesma janela de bilhões de anos.
Por que o estudo revoluciona a história geológica do planeta?
A constatação de que um bloco continental estava em rápida movimentação enquanto outro se mantinha estacionário forneceu a prova definitiva contra a teoria da crosta unificada. O pesquisador Alec Brenner, autor principal do artigo e vinculado à Universidade de Yale, explicou que a litosfera antiga não era uma casca rígida global que cobria toda a Terra.
Em vez disso, ela era segmentada em diferentes partes que podiam se mover umas em relação às outras.
O trabalho recebe amplo reconhecimento por apresentar um volume impressionante de dados magnéticos de alta qualidade em materiais de extrema antiguidade. Uwe Kirscher, cientista da Universidade Curtin que não participou do estudo principal, validou a importância das conclusões da equipe. A comprovação do movimento relativo entre diferentes continentes primitivos representa a peça que faltava para entender a transição fundamental que originou os atuais continentes, montanhas e oceanos que conhecemos hoje. Em termos mais amplos, esse tipo de pesquisa ajuda a reconstruir a história geológica da Terra, base para comparar a evolução de diferentes regiões do planeta, inclusive áreas hoje estudadas por instituições científicas brasileiras.
