O Ministério Público da Bahia (MP-BA) iniciou uma apuração formal para investigar o ex-deputado federal e ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB). A suspeita central que recai sobre o político é o recebimento de uma propina estipulada em R$ 1 milhão. Este montante estaria intrinsecamente ligado a uma complexa trama criminosa elaborada para facilitar a fuga de uma liderança de alta periculosidade pertencente ao Comando Vermelho (CV), que se encontrava detida em uma unidade prisional localizada no sul do Estado da Bahia.
A investigação em curso é um desdobramento direto da chamada Operação Duas Rosas, que teve sua deflagração oficializada na quinta-feira, dia 16. O alvo principal do resgate criminoso era o traficante Ednaldo Pereira de Souza, conhecido no submundo do crime pela alcunha de “Dadá”. As autoridades apontam que ele exercia o papel de liderança primária do Primeiro Comando de Eunápolis, uma organização criminosa que atua como o braço logístico e operacional da facção carioca na região sul baiana.
De acordo com informações do Jovem Pan e do Estadão, as revelações que trouxeram o nome de Geddel de volta aos holofotes judiciais emergiram de provas técnicas colhidas pelos investigadores estaduais.
Como a trama de fuga foi descoberta pelo Ministério Público?
A elucidação dos bastidores dessa evasão em massa começou a ganhar contornos claros a partir da quebra de sigilo telemático dos envolvidos. Os promotores de Justiça responsáveis pelo caso conseguiram recuperar diálogos comprometedores por meio da extração minuciosa de dados dos aparelhos celulares pertencentes a dois alvos principais da referida operação policial.
Os interlocutores flagrados nessas trocas de mensagens eram o também ex-deputado Uldurico Júnior e a ex-diretora do presídio de Eunápolis, Joneuma Silva Neres. Nas conversas monitoradas e periciadas, o nome de Geddel Vieira Lima não apenas é citado reiteradamente, mas ele é tratado com extrema reverência hierárquica. Os investigados se referiam a ele utilizando o termo
“chefe”
durante as tratativas logísticas para o pagamento dos valores ilícitos.
O aprofundamento das investigações contou com um elemento jurídico decisivo: a colaboração premiada. A ex-diretora da unidade prisional estadual decidiu firmar um acordo de delação com o Ministério Público da Bahia. Em seus depoimentos oficiais, ela confessou de maneira contundente a sua participação ativa na facilitação da saída irregular do traficante das dependências da cadeia.
O que revelam os detalhes da operação e do esquema financeiro?
A fuga orquestrada e financiada pelo crime organizado não se limitou apenas à liderança da facção. O evento criminoso resultou na evasão de um número expressivo de detentos do sistema penitenciário. Conforme o detalhamento divulgado pelas autoridades, o plano de fuga contemplou as seguintes diretrizes:
- A fuga do líder Ednaldo Pereira de Souza, o “Dadá”;
- A evasão simultânea de outros 15 detentos que cumpriam pena na mesma unidade prisional de Eunápolis;
- A concretização de todo o plano na data específica de 12 de dezembro de 2024.
O aspecto financeiro da trama criminosa é o elemento que fornece a nomenclatura à ofensiva policial. A designação “Operação Duas Rosas” foi escolhida de forma simbólica, fazendo uma referência direta ao valor total da vantagem indevida que teria sido mobilizada para corromper agentes públicos e garantir o sucesso da evasão. O montante estimado da propina estipulada pelas partes foi fixado em exatos R$ 2 milhões.
Qual seria o papel e a fatia de Geddel Vieira Lima no acordo?
A divisão estrutural do dinheiro oriundo da corrupção é o ponto nevrálgico que liga diretamente o esquema ao alto escalão político. Durante as conversas interceptadas pelos investigadores, Uldurico Júnior — que acabou sendo alvo de um mandado de prisão cumprido enquanto ele estava hospedado em um hotel na Praia do Forte — detalhou como seria feita a partilha do dinheiro.
Segundo o ex-deputado preso, a metade do valor integral da propina negociada para viabilizar e executar o plano de fuga do líder da facção criminosa seria obrigatoriamente destinada a Geddel. Isso significa que R$ 1 milhão dos R$ 2 milhões arrecadados teriam como destinatário final o ex-ministro, apontado como o principal beneficiário do topo da cadeia de repasses.
Para apurar com o rigor necessário a veracidade das menções criminais feitas pelos alvos da operação, o Ministério Público da Bahia tomou medidas processuais autônomas. A instituição instaurou oficialmente um Procedimento Investigatório Criminal (PIC). O objetivo exclusivo desse procedimento é dissecar a suposta ligação estrutural e financeira de Geddel Vieira Lima com Uldurico Júnior, além de comprovar de forma cabal se o ex-ministro foi, de fato, o beneficiário final da partilha do milhão de reais.
A gravidade do inquérito evidencia a suposta associação entre figuras públicas que já ocuparam importantes cargos em Brasília e as engrenagens de organizações criminosas de altíssimo perigo, evidenciando o nível de infiltração do poder econômico do tráfico nas instituições. A imprensa tentou estabelecer contato com as defesas de Geddel Vieira Lima e Uldurico Júnior para que apresentassem suas versões sobre as apurações do MP-BA, e o espaço segue aberto para os esclarecimentos dos citados.