O Lago Erie, nos Estados Unidos, está sendo transformado em uma ampla plataforma de pesquisa sobre qualidade da água, com a instalação de centenas de boias com sensores por pesquisadores e organizações da região de Cleveland, Ohio. A iniciativa ocorre nas próximas semanas, em resposta à persistência de problemas de poluição no lago, usado diariamente para abastecimento industrial e urbano, e busca testar tecnologias de monitoramento em tempo real para identificar fatores como E. coli, florações de algas e turbidez. De acordo com informações do Guardian Environment, o projeto reúne empresas e pesquisadores de vários países.
O esforço é conduzido em colaboração com a Cleveland Water Alliance, organização sem fins lucrativos que atua com cerca de 300 empresas, instituições de pesquisa e órgãos públicos para desenvolver soluções de água limpa no entorno do lago. Segundo a reportagem, o objetivo é usar o Erie como campo de testes para tecnologias que possam depois ser aplicadas em outras partes do mundo.
Por que o Lago Erie segue sob pressão ambiental?
Embora a qualidade da água tenha melhorado em relação às décadas de 1960, quando rios e lagos da região de Cleveland sofriam com forte contaminação industrial, o Lago Erie ainda enfrenta dificuldades. O texto cita o relatório State of the Great Lakes de 2025, divulgado no mês passado, segundo o qual o lago continua com classificação ruim em poluição causada por escoamento químico e aparece de forma recorrente entre os cinco lagos mais poluídos dos Estados Unidos.
A pressão sobre esse sistema hídrico é ampliada pelo alto consumo de água doce. Mais de 5,5 bilhões de galões são retirados do lago por dia para atender demandas industriais e de consumo. Ao mesmo tempo, cidades como Detroit, Cleveland e Buffalo voltaram a crescer pela primeira vez em mais de 50 anos, enquanto a expansão de datacenters aumenta a necessidade de água limpa na região.
Bryan Stubbs, da Cleveland Water Alliance, afirmou que líderes cívicos locais passaram a questionar por que a região não fazia mais com esse recurso natural. Em fala reproduzida pela reportagem, ele atribuiu parte da resposta à necessidade de desenvolver tecnologia voltada ao setor hídrico.
“Several years ago, our civic leaders were asking: ‘Why aren’t we doing more with water? It’s our biggest natural asset.’ We figured our biggest issue around water was [the lack of] water tech.”
Como funciona a estrutura de monitoramento no lago?
De acordo com a reportagem, as boias instaladas na porção oeste do Lago Erie fornecem informações em tempo real sobre altura de ondas, contaminação e níveis de poluição em uma área de 7.750 milhas quadradas, tanto em áreas costeiras quanto em terra. A Cleveland Water Alliance afirma que esse esforço transformou o lago no maior corpo de água doce digitalmente conectado do mundo, embora essa descrição seja apresentada no texto como uma alegação da própria organização.
Entre os projetos em andamento, a Case Western University incubou pesquisas para uma tecnologia piloto capaz de capturar 90% dos microplásticos de até 50 micrômetros em máquinas de lavar, evitando que esse material retorne ao lago. Outros estudos registram radiação solar, níveis de oxigênio dissolvido e temperaturas da água e do ar. Empresas sul-coreanas também passaram a testar métodos eletroquímicos de tratamento da água local.
Stubbs afirmou ainda que o Lago Erie concentra 2% da água dos Grandes Lagos, mas 50% de sua diversidade, justamente por ser o mais raso. Segundo ele, isso também faz com que o lago aqueça mais rapidamente a cada ano.
Quais são as principais fontes de poluição identificadas?
O texto informa que mais de 12 milhões de moradores e atividades econômicas em sua bacia hidrográfica, incluindo agricultura, manufatura e uso residencial, contribuem para a carga de resíduos que chega ao lago. A seção oeste do Erie sofre especialmente com o escoamento agrícola de fosfatos a partir do rio Maumee.
Sandy Bihn, da Lake Erie Waterkeeper, disse à reportagem que cientistas defendem uma redução de 40% no fósforo para minimizar florações de algas e que cerca de 90% do que entra na bacia oeste do lago vem do escoamento agrícola. Ela afirmou que, embora tenha havido queda de 50% na quantidade de fósforo associada a fertilizantes comerciais, o volume de esterco aumentou em grande parte por causa da expansão de operações pecuárias na região.
“We’re not getting anywhere. The manure problem is the core problem, the growing problem.”
A agricultura não é apontada como a única responsável. A reportagem lembra que a Campbell’s admitiu ter poluído o rio Maumee mais de 5.400 vezes em uma planta local entre 2019 e 2024. Em Toledo, autoridades municipais precisaram gastar cerca de R$ 500 milhões em melhorias no tratamento de água após florações severas de algas em 2014 deixarem a água do lago tóxica e interromperem o abastecimento de centenas de milhares de moradores por três dias.
Que tecnologias estão sendo testadas para resposta local?
Em Avon Lake, cidade costeira a cerca de 20 milhas a oeste de Cleveland, administradores locais e a Cleveland Water Alliance trabalham com uma empresa da Coreia do Sul para desenvolver um sistema de produção local de hipoclorito de sódio em grau comercial, ingrediente ativo do alvejante com cloro. Segundo a reportagem, o projeto piloto é o primeiro desse tipo na América do Norte e elimina a necessidade de transportar gás cloro perigoso por caminhões e trens.
Rob Munro, da Avon Lake Regional Water, afirmou que a principal vantagem é a segurança, além da redução de problemas na cadeia de suprimentos. A aliança também pretende avançar em tecnologias para monitoramento no inverno, acompanhando atividade da vida aquática, mudanças de comportamento e níveis de turbidez. Água mais turva pode favorecer a formação de gelo frazil, capaz de bloquear tubulações de captação durante os períodos mais frios.
- Monitoramento de E. coli, algas e turbidez com boias sensorizadas
- Testes com captura de microplásticos em máquinas de lavar
- Tratamento eletroquímico da água por empresas sul-coreanas
- Produção local de hipoclorito de sódio em Avon Lake
- Desenvolvimento de sistemas de monitoramento durante o inverno
Para os articuladores do projeto, quanto mais boias forem instaladas, mais dados estarão disponíveis para operadores compreenderem o que ocorre no lago em função dos ventos e correntes. A proposta combina resposta prática a problemas históricos de poluição com a criação de uma infraestrutura permanente de pesquisa hídrica.