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Islamofobia no Brasil: mulheres muçulmanas são as principais vítimas do preconceito

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Oito em cada dez mulheres da comunidade islâmica que vivem no Brasil já enfrentaram algum tipo de preconceito ou discriminação motivada por intolerância religiosa. Os dados integram os resultados preliminares do terceiro relatório sobre islamofobia no país, divulgado recentemente e referente ao primeiro trimestre de 2026. A pesquisa revela que as agressões ocorrem predominantemente em espaços públicos e afetam diretamente a rotina e a integração social destas cidadãs.

De acordo com informações da Agência Brasil, o levantamento é coordenado pela antropóloga Francirosy Campos Barbosa, ligada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP). O estudo traz como principal novidade o recorte de gênero, analisando como a intolerância atinge especificamente o público feminino nas diferentes regiões do território nacional.

O que motiva os ataques contra mulheres muçulmanas?

O relatório aponta que a utilização do véu islâmico atua como o principal estopim para o início das hostilidades. A partir da identificação visual da religião, a vulnerabilidade da vítima sofre um aumento significativo. As situações relatadas pelas 328 participantes do estudo, que responderam a questionários e forneceram depoimentos anônimos entre os meses de janeiro e março de 2026, incluem uma série de violações de direitos.

Entre as principais dificuldades e formas de violência enfrentadas por essas mulheres no cotidiano brasileiro, o documento da USP destaca as seguintes ocorrências:

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  • Perseguições e constrangimentos em locais públicos;
  • Agressões de natureza verbal e física;
  • Revistas consideradas abusivas por forças de segurança ou estabelecimentos privados;
  • Obstáculos sistemáticos para a inserção no mercado de trabalho;
  • Ataques associados a parcelas da Igreja Evangélica;
  • Conflitos e intolerância dentro do próprio núcleo familiar.

Por que os casos de discriminação não são denunciados?

Apesar de 92,2% das entrevistadas acreditarem que são alvos constantes de discriminação e de 80,4% afirmarem categoricamente já terem sofrido preconceito na pele, a pesquisa identificou um cenário crítico de subnotificação. A esmagadora maioria das vítimas prefere não buscar o apoio das instituições de segurança pública nem formalizar denúncias nas delegacias especializadas.

Segundo a avaliação da antropóloga responsável pelo projeto, essa ausência de registros oficiais acontece por dois motivos centrais: a descrença de que o sistema de justiça fornecerá uma resposta positiva e punitiva aos agressores, e a dificuldade técnica de produzir provas legais, uma vez que as violências ocorrem de forma rápida e difusa em ruas e praças. Diante desse quadro, os pesquisadores enfatizam a importância da educação no combate à intolerância religiosa.

“Acho que o mais importante é a gente ter essa consciência desse enfrentamento, o reconhecimento que não dá mais para excluir a comunidade muçulmana do debate de modo geral, religioso, e que a gente precisa de fato se comprometer enquanto sociedade para que as meninas que usam lenço se sintam bem em qualquer lugar, não se sintam como se fosse uma ameaça. A islamofobia vem do medo. O medo do desconhecido, então que as pessoas possam visitar as mesquitas, as mesquitas estão sempre abertas, não tem segurança… Então eu acredito muito nos processos pedagógicos”

Como a islamofobia se manifesta na cultura brasileira?

O cenário documentado em 2026 não apresenta avanços em relação às publicações anteriores do estudo, realizadas nos anos de 2022 e 2023. A análise dos dados demonstra um padrão consistente de invisibilidade da dor das vítimas. A percepção acadêmica indica que a sociedade brasileira possui dificuldade em reconhecer suas próprias atitudes discriminatórias, camuflando o preconceito sob uma falsa ideia de convivência pacífica entre diferentes crenças.

A socióloga e doutoranda da USP, Mariana dos Santos, que pesquisa as interações entre muçulmanos e não muçulmanos no país, reforça que a violência opera de maneira oculta, mas apresenta dinâmicas que se assemelham ao que já é observado no continente europeu há décadas.

“A islamofobia que existe no Brasil não é tão evidente quanto a islamofobia europeia. Mas, recentemente tem se notado padrões de islamofobia no Brasil crescentes que são muito similares àqueles que acontecem na Europa há muito tempo. Por exemplo, o mito da islamização tem sido um discurso muito frequente entre algumas pessoas, porque faz sentido com essa intolerância brasileira que existe, mas que as pessoas não reconhecem como tal. Então, essa não percepção de que o brasileiro é intolerante, de que o brasileiro discrimina, de que o brasileiro é racista, acaba abrindo espaço para que esse tipo de violência cresça sem que as pessoas falem sobre isso”

O estudo, que contou com uma adesão mais expressiva de residentes das regiões Sul e Sudeste, terá o seu relatório completo e detalhado publicado no mês de junho. Até lá, as instituições envolvidas esperam fomentar o debate sobre a necessidade de políticas públicas voltadas para a proteção da liberdade religiosa e da integridade física e moral das mulheres da comunidade islâmica no Brasil.

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