A guerra no Sudão completou três anos em 15 de abril e segue sendo descrita como a pior crise humanitária do mundo, com pelo menos 59 mil mortos, denúncias de genocídio em Darfur, cerca de 14 milhões de desabrigados e 19 milhões de pessoas em situação de fome aguda. O conflito opõe o Exército do Sudão às Forças de Apoio Rápido (RSF) e, além dos combates, tem ampliado os efeitos sobre civis com ataques por drones, colapso de serviços de saúde e avanço de surtos de doenças. De acordo com informações da Revista Fórum, a crise permanece sem perspectiva de encerramento.
Segundo o texto original, a deterioração econômica também foi agravada pelo choque do petróleo associado à ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, com impacto sobre preços de alimentos e combustíveis. Em um cenário já devastado, mais de 33 milhões de pessoas necessitam de assistência, enquanto parte relevante da população foi forçada a deixar suas casas desde o início da guerra, em abril de 2023.
Como o uso de drones ampliou o impacto da guerra sobre civis?
Os drones passaram a expandir o campo de batalha no Sudão, atingindo pessoas que vivem longe das linhas de frente. Conforme relatado pela Médicos Sem Fronteiras, houve nos últimos meses uma mudança com o uso extensivo desses equipamentos contra infraestrutura e áreas civis povoadas.
Desde fevereiro, a organização informou ter tratado cerca de 400 pessoas com ferimentos causados por drones após ataques a áreas civis no leste do Chade e em várias regiões de Darfur. Já a Organização das Nações Unidas afirmou que esses ataques mataram mais de 500 civis entre 1º de janeiro e 15 de março.
“As equipes estão recebendo pacientes com ferimentos horríveis: pacientes com ferimentos de estilhaços, com membros amputados, queimaduras devastadoras — muitas já chegam mortas ao hospital”, descreve Muriel Boursier, coordenadora de emergência da MSF em Darfur. “A escala de violência e atrocidade que testemunhamos é insuportável.”
Quais são os efeitos humanitários e sanitários da guerra no Sudão?
Além da violência direta, a guerra vem agravando a desnutrição e a disseminação de doenças. Há registros de malária, dengue, sarampo, poliomielite, hepatite E, meningite e difteria em vários estados do país. O acesso aos serviços de saúde também permanece comprometido em larga escala.
A Organização Mundial da Saúde informou que 37% das unidades de saúde dos 18 estados sudaneses continuam inoperantes. Hospitais, clínicas, ambulâncias, pacientes e profissionais de saúde têm sido alvo de ataques repetidos. Segundo a OMS, 217 ataques a serviços de saúde foram registrados desde 15 de abril de 2023, com 2052 mortes e 810 feridos.
“A guerra no Sudão está devastando vidas e negando às pessoas seus direitos mais básicos, incluindo saúde, água, alimentação e segurança. O sistema de saúde foi paralisado, deixando milhões sem cuidados médicos essenciais”, explicou o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Médicos e profissionais de saúde podem salvar vidas, mas precisam de locais de trabalho seguros e dos medicamentos e suprimentos necessários. Em última análise, o melhor remédio é a paz”.
O texto também aponta que mais de quatro milhões de pessoas poderão sofrer de desnutrição aguda em 2026, o que amplia a vulnerabilidade a complicações médicas e novas infecções. Nesse contexto, a crise humanitária se prolonga sem uma solução política visível.
O que os dados mostram sobre a escala dos ataques e do deslocamento?
Desde abril de 2023, quase 14 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, muitas delas mais de uma vez. O levantamento citado no artigo, com base no Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), registrou pelo menos 13.401 ataques entre 15 de abril de 2023 e 27 de março de 2026, média de 12 por dia.
- 53% dos ataques registrados foram atribuídos ao Exército do Sudão, com 7.100 ocorrências;
- 35% foram atribuídos às Forças de Apoio Rápido, com 4.705 ataques;
- 12% restantes, ou 1.596 ataques, foram associados a outros grupos armados.
Os números reunidos no texto reforçam a dimensão da crise no país africano, marcada por mortes, deslocamento em massa, fome e destruição de estruturas essenciais. Mesmo assim, o conflito segue com cobertura internacional limitada e sem perspectiva concreta de redução imediata da violência.