Jovens da costa leste da Inglaterra, especialmente em cidades como Lowestoft e Great Yarmouth, relatam que a promessa de expansão dos empregos verdes não se converteu, até agora, em vagas acessíveis na prática. O caso de Jake Snell, de 19 anos, expõe esse descompasso entre o discurso político sobre a transição energética, os investimentos em energia eólica offshore e a realidade de quem buscava entrar no setor por meio de cursos técnicos e aprendizagens profissionais.
De acordo com informações do Guardian Environment, Snell reúne formação considerada adequada para atuar na área: boas notas em matemática e física, distinção em engenharia e experiência prática em uma empresa do setor. Mesmo assim, ao fim de seu curso, apenas duas pessoas de uma turma de 14 conseguiram aprendizagem profissional, e só uma delas em engenharia.
Por que a promessa de empregos verdes não se concretizou para muitos jovens?
O governo britânico tem apresentado a chamada revolução verde como resposta ao declínio econômico e como motor de crescimento em regiões costeiras e pós-industriais. No ano passado, Ed Miliband afirmou que um governo trabalhista treinaria pessoas para 400 mil empregos verdes adicionais até 2030, destacando funções em energia eólica, nuclear e redes elétricas, com distribuição por comunidades costeiras e salários acima da média do Reino Unido.
Na prática, porém, jovens como Snell afirmam que a oferta divulgada não corresponde às oportunidades efetivamente disponíveis. Ele disse ao jornal que estudantes eram informados de que os cursos tinham fortes conexões com a indústria e de que novos projetos abririam portas para estágios e aprendizagens. Ainda assim, muitos colegas que não queriam cursar universidade acabaram seguindo esse caminho por falta de alternativas.
“It was quite frustrating.”
“Unfortunately, quite a lot of my friends who said that they didn’t want to go to university and wanted to take on these apprenticeship opportunities that were being promoted everywhere, are now going to university out of necessity more than anything, because they feel there’s no other option.”
A frustração ganha mais peso porque a região onde ele vive parece, à primeira vista, simbolizar a nova economia verde. O leste da Inglaterra abriga 44% dos parques eólicos offshore do Reino Unido. Em Lowestoft, a turbina eólica conhecida localmente como “Gulliver” domina a paisagem. Em Great Yarmouth, o porto foi escolhido como local de pré-montagem de um parque eólico offshore de £4 bilhões.
O que pesquisadores apontam sobre esse descompasso?
Para especialistas ouvidos pela reportagem, o problema não está apenas na quantidade de anúncios sobre empregos verdes, mas na falta de clareza sobre quais postos existem de fato e para quem eles são viáveis. Rachel Wilde, antropóloga social da University College London, afirma que o termo “green jobs” é nebuloso e que há pouca evidência concreta sobre o que esses empregos são exatamente.
“‘Green jobs’ is a somewhat nebulous term, and it would appear that there is little concrete evidence of what these jobs actually are.”
Segundo Wilde, existe uma distância entre políticos e formuladores de políticas públicas, interessados em dar visibilidade às novas oportunidades econômicas, e as pessoas que trabalham diretamente com orientação profissional para os jovens. Ela também afirma que há forte promoção de cargos bem remunerados e de alto perfil, como técnicos de turbinas eólicas, embora esses não representem a maior parte das vagas.
“The government and some of the industry are setting people up to imagine that there’s all these jobs in high-profile roles when, actually all the apprenticeships and training opportunities for those are really oversubscribed.”
Avril Keating, professora de estudos da juventude na UCL, argumenta que a discussão precisa considerar se os postos oferecidos são adequados ao perfil das comunidades que deveriam ser beneficiadas. Ela lembra que o setor de energia verde não se resume às funções técnicas mais visíveis e inclui atividades de apoio que também podem gerar trabalho local.
- funções técnicas altamente disputadas, como manutenção de turbinas;
- empregos operacionais e de apoio ligados à infraestrutura;
- necessidade de orientação profissional continuada em áreas costeiras.
Há perspectiva de mudança para as comunidades costeiras?
Polly Billington, deputada por East Thanet e presidente do grupo parlamentar trabalhista ligado às áreas costeiras, disse que ainda é necessário fazer mais para garantir que essas comunidades participem dos benefícios da energia verde. Para ela, as habilidades e os empregos de suporte à infraestrutura energética precisam ser desenvolvidos perto do litoral, evitando que o trabalho seja deslocado para outros lugares ou ocupado majoritariamente por contratados temporários de fora.
O governo britânico anunciou, dentro do plano de empregos em energia limpa, a criação de cinco faculdades técnicas de excelência voltadas à formação para o setor de energia verde. Instituições de educação adicional que solicitaram esse status devem ser informadas nas próximas semanas sobre o resultado. Já o Departamento de Energia afirmou, segundo a reportagem, que milhares de empregos foram criados em captura de carbono e energia eólica offshore em áreas como Teesside, East Sussex e norte do País de Gales.
O relato reunido pelo Guardian, no entanto, indica que a presença física de parques eólicos e grandes investimentos não garante, por si só, acesso imediato ao mercado de trabalho para jovens das cidades costeiras. O caso de Snell, que hoje trabalha para o conselho local em Suffolk após não encontrar as oportunidades prometidas em engenharia e energia, sintetiza esse contraste entre expectativa e realidade.