A provedora de soluções climáticas ClimeFi estruturou a primeira transação pública de unidades de remoção de carbono alinhada ao novo padrão da União Europeia. A operação, anunciada em março de 2026, envolve a compra de ativos pela bolsa de valores Nasdaq e pela plataforma de tecnologia financeira Adyen. Os créditos serão gerados pelo projeto Beccs Stockholm, uma iniciativa de bioenergia com captura e armazenamento operada pela empresa sueca Stockholm Exergi.
De acordo com informações do ESG Today, a movimentação financeira ocorre após a Comissão Europeia adotar seu primeiro conjunto de metodologias voluntárias de certificação. O regulamento estabelece diretrizes para quantificar, monitorar e verificar as remoções permanentes da atmosfera. Para o Brasil, o avanço é relevante porque a União Europeia é um dos principais polos regulatórios em sustentabilidade, e seus critérios tendem a influenciar discussões sobre integridade e padronização no mercado voluntário de carbono, inclusive entre empresas com atuação internacional.
O que é o novo padrão de créditos de carbono da União Europeia?
O sistema conhecido como estrutura CRCF (Carbon Farming and Carbon Removals) foi desenhado para criar um modelo de certificação unificado no continente europeu. O objetivo principal das autoridades reguladoras é evitar a prática do greenwashing, que consiste na promoção de falsas alegações ambientais por parte de corporações.
As primeiras tecnologias aprovadas pela comissão baseiam-se em sua maturidade e capacidade de contribuição para as metas climáticas do bloco. As metodologias iniciais de certificação incluem os seguintes processos:
- Captura Direta de Ar com Armazenamento (DACCS);
- Captura de Emissões Biogênicas com Armazenamento (BioCCS);
- Remoção de Carbono por Biochar (BCR).
Estas regras voluntárias definem exatamente o que contabiliza uma tonelada de carbono removida. Além disso, as normas estabelecem como a permanência do armazenamento deve ser garantida e detalham formas de mitigação de riscos críticos, como vazamentos operacionais e responsabilidades legais. No contexto brasileiro, discussões sobre critérios de mensuração, rastreabilidade e verificação também são centrais para dar credibilidade a projetos ambientais e facilitar o diálogo com compradores estrangeiros.
Como funcionará a instalação tecnológica na Suécia?
A Stockholm Exergi está construindo uma instalação avançada em sua planta de cogeração localizada em Värtan, em Estocolmo, capital da Suécia. O projeto integra uma usina de calor e energia movida a resíduos florestais e de produção de celulose com um sistema de captura de dióxido de carbono. O gás presente nas chaminés da unidade será resfriado, comprimido em formato líquido e transportado para armazenamento permanente.
Com operações previstas para iniciar em 2028, a estrutura terá capacidade para capturar até 800 mil toneladas de dióxido de carbono por ano. Antes mesmo da finalização das obras, o complexo já atraiu acordos em larga escala de compradores globais. A lista de clientes engloba a Microsoft e a coalizão Frontier, que atua em nome de gigantes do mercado como Alphabet, Meta, JPMorgan Chase e H&M.
Anders Egelrud, diretor executivo da companhia energética sueca, destacou a importância do acordo para a validação do mercado.
“Esta iniciativa demonstra a confiança que os compradores europeus têm tanto no projeto Beccs Stockholm quanto na estrutura CRCF para atender às suas próprias ambições climáticas. Acreditamos estar bem posicionados para figurar entre os primeiros projetos permanentes a emitir estas unidades”
Qual o papel do novo coletivo de compradores do mercado financeiro?
A criação de um grupo unificado de adquirentes, formado inicialmente por instituições de peso como Nasdaq e Adyen, permitirá a divisão de custos de diligência prévia, contratação e monitoramento. Segundo os desenvolvedores da solução climática, este modelo facilitará o acesso de empresas de diferentes portes aos ativos ambientais padronizados, garantindo termos competitivos para todos os envolvidos.
O consórcio estruturador acompanhará toda a progressão do complexo sueco, desde os estágios de certificação regulatória até a emissão e entrega final das unidades compradas. Paolo Piffaretti, diretor executivo e cofundador da ClimeFi, ressaltou o pioneirismo da operação comercial focada no meio ambiente.
“Desde a estruturação das primeiras transferências do Artigo 6.2 no mercado de remoção no ano passado até a coordenação da primeira transação pública CRCF, estamos muito orgulhosos de moldar a política em nível europeu. Esperamos permanecer na vanguarda do mercado à medida que ele continua a se desenvolver”
Pelo lado da plataforma financeira participante, o foco reside no desenvolvimento da infraestrutura de mercado em colaboração com os órgãos oficiais da Europa.
“Na Adyen, focamos em iniciativas que apoiam um impacto catalisador no mercado voluntário de remoção de carbono. Este projeto faz exatamente isso, ao mesmo tempo que constrói infraestrutura essencial de mercado em colaboração com a Comissão Europeia”
