
Especialistas em saúde alertaram nesta segunda-feira (6 de abril de 2026) que o cigarro eletrônico está recrutando uma nova geração de jovens que nunca consumiram tabaco tradicional, além de elevar os níveis de dependência química. O alerta ocorreu durante uma audiência pública promovida pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado Federal, sediada em Brasília, um encontro articulado por solicitação da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) para avaliar os impactos sanitários destes aparelhos.
De acordo com informações do Senado Federal, a premissa de que os aparelhos servem para redução de danos foi amplamente contestada pelos médicos e pesquisadores presentes. O foco central da discussão orbitou em torno da falsa sensação de segurança transmitida pelos fabricantes e do crescimento expressivo do consumo entre menores de idade.
Por que o dispositivo atrai pessoas que nunca fumaram?
Durante a sessão técnica, o representante do Instituto Nacional de Câncer (Inca), André Salem Szklo, desconstruiu o argumento recorrente de que os vaporizadores ajudariam adultos a abandonar o vício. Ele explicou que a ideia de que o produto seria quase totalmente menos prejudicial tem base em um levantamento do ano de 2015, originado no Reino Unido, que atualmente é classificado como controverso pela comunidade científica global.
O pesquisador da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca apresentou dados indicando que quase 90% dos adultos jovens usuários de dispositivos eletrônicos jamais haviam experimentado o tabaco convencional antes.
“A gente está trazendo uma população que, na verdade, está sendo recrutada por meio do dispositivo eletrônico para fumar. E que depois vai migrar para o cigarro convencional. A lógica da redução de danos é falaciosa, porque não acontece”, declarou Szklo aos parlamentares e convidados presentes na sessão.
Quais são os impactos reais na saúde dos adolescentes?
Os prejuízos orgânicos foram detalhados por representantes de entidades médicas de alcance nacional. João Paulo Lotufo, integrante da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), e Flávia Fernandes, membra da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), traçaram um panorama rigoroso sobre a exposição juvenil à nicotina em formatos concentrados.
O cenário é endossado pelos números oficiais da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados no mês de março. O levantamento evidenciou que a experimentação desses produtos subiu exponencialmente em um curto intervalo de tempo. O comportamento da curva aponta os seguintes indicadores de aumento:
- O índice de experimentação marcava 16,8% no ano de 2019.
- O percentual de jovens testando os aparelhos alcançou 29,6% em 2024.
Sobre as consequências biológicas, Lotufo esclareceu as possibilidades de danos severos a longo prazo.
“Nem todo mundo vai ficar doente, nem todo mundo vai ter câncer, nem todo mundo vai ter AVC, nem todo mundo vai ter surto psicótico. Mas o risco existe”, relatou o médico pediatra.
Em complemento às advertências, Fernandes ressaltou que a substância contida nos fluidos sintéticos desenha um caminho de vício muito acelerado, sendo capaz de gerar alterações de caráter permanente no desenvolvimento cerebral durante a fase de maturação biológica da adolescência.
“Os jovens são suscetíveis a esse tipo de moda, a esse tipo de pressão social. A gente precisa entender que eles são o foco e que a gente precisa tomar cuidado”, acrescentou a pneumologista, reforçando a vulnerabilidade desse grupo demográfico diante de estratégias comerciais contemporâneas.
Como o apelo visual influencia o consumo por crianças?
A condução da audiência abriu espaço para denúncias sobre o direcionamento visual e sensorial de marketing atrelado aos produtos fumígenos. A senadora Damares Alves, responsável por presidir a mesa de debates, evidenciou que crianças com cerca de dez anos de idade já integram as tristes estatísticas de consumo ativo no Brasil. Segundo os relatos apresentados, a estética colorida, o formato tecnológico e os variados sabores artificiais funcionam deliberadamente como ferramentas de atração para a faixa etária infantil.
“Os pais estão preocupados porque nós estamos vendo crianças de 10 anos fazendo o consumo no Brasil. Nas festinhas de adolescentes, os cigarros são servidos em bandeja. Cigarros com motivos infantis. Tem cor de rosa, laranja, passando uma imagem para o adolescente de que é tudo muito bonitinho, inofensivo”, descreveu detalhadamente a parlamentar, chamando atenção para a normalização social do uso em ambientes festivos e de convivência familiar.
Na ótica da representante legislativa, a pressão pela liberação total do comércio possui bases puramente mercadológicas em detrimento da saúde preventiva.
“O que está envolvido aqui é dinheiro. Alguém quer ficar rico em cima das nossas crianças e adolescentes, dos nossos jovens, causando dependência química e abrindo a porta para a nicotina. Empresas que produzem cigarros estão a favor do cigarro eletrônico. Estranho, né? Tudo é dinheiro. São lobbies poderosíssimos”, completou enfaticamente.
O que diz o projeto de regulamentação atualmente em tramitação?
A intensa discussão no colegiado ocorre no exato contexto de avanço da tramitação do Projeto de Lei (PL) 5.008/2023, idealizado originariamente pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). O texto propõe regulamentar a produção, a importação e a comercialização dos cigarros eletrônicos no Brasil, pauta que divide a opinião de especialistas e parlamentares no Congresso Nacional.