A Amazônia pode se regenerar mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de vento, mas essa recuperação ocorre com perda de diversidade e maior vulnerabilidade a novos distúrbios, segundo estudo publicado em 20 de abril de 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A pesquisa foi liderada por brasileiros, se baseia em 20 anos de monitoramento de campo em uma floresta experimental em Mato Grosso e indica que áreas degradadas conseguem retomar características florestais, embora em condições ecológicas alteradas. De acordo com informações da Folha Ambiente, o trabalho também aponta que essas áreas recuperadas ficam mais expostas a eventos climáticos extremos e aos efeitos do desmatamento e da mudança climática.
Segundo os autores, a regeneração não significa retorno integral à condição original. O estudo mostra que espécies mais vulneráveis tendem a ser substituídas por outras generalistas, mais resistentes, o que leva à formação de florestas mais homogêneas. Para os pesquisadores, esse resultado reforça a resiliência do bioma, mas sem afastar os riscos associados à degradação acumulada.
O que a pesquisa identificou sobre a recuperação da floresta?
O trabalho documentou a perturbação causada pelo fogo e a recuperação em uma floresta experimental chamada Tanguro, localizada em uma área de transição entre Amazônia e Cerrado, em Mato Grosso. Os pesquisadores acompanharam três parcelas de 50 hectares cada: uma sem queima, outra submetida a queimadas anuais entre 2004 e 2010 e uma terceira com queimadas trienais em 2004, 2007 e 2010.
Os resultados indicam que, com a suspensão das queimadas, a estrutura e o funcionamento da floresta se recuperaram rapidamente em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável. Já nas áreas de borda, o processo foi mais lento, com queda de riqueza de espécies entre 20% e 46% no período de 2004 a 2024. O estudo destaca que o efeito de borda altera as condições ecológicas nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com pastagens, estradas ou lavouras.
A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios.
A declaração é do biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo ao lado do engenheiro florestal Paulo Brando. Segundo ele, a resiliência observada no sítio experimental não elimina a necessidade de preservação, especialmente porque o controle de fogo aplicado na área estudada não é replicável em toda a Amazônia.
Por que os pesquisadores dizem que a floresta volta diferente?
De acordo com a pesquisa, apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e água, a composição das espécies mudou ao longo do tempo. O retorno da cobertura vegetal ocorreu com maior presença de espécies generalistas, mais tolerantes à seca, enquanto a composição original não foi restabelecida mesmo após 14 anos, sobretudo entre espécies especialistas de floresta.
O estudo também registrou o papel das gramíneas invasoras no avanço da degradação, especialmente nas bordas. Essas espécies favoreceram incêndios de alta intensidade e dificultaram a regeneração de árvores. Entre as gramíneas observadas estavam Aristida longifolia, Imperata sp e Andropogon gayanus, esta última com pico de presença em 2012 após incêndios de alta severidade.
- no interior da floresta, a recuperação foi mais rápida;
- nas bordas, a perda de espécies foi mais intensa;
- gramíneas invasoras aumentaram a severidade do fogo;
- o fechamento do dossel reduziu essas gramíneas ao longo do tempo.
Com o aumento da cobertura arbórea, especialmente a partir de 2016, essas gramíneas foram reduzidas drasticamente, restando apenas manchas tolerantes à sombra. Para os autores, isso sugere que a degradação observada não levou à transformação definitiva da floresta em savana.
O estudo afasta a hipótese de savanização da Amazônia?
Os autores afirmam que os dados de campo não mostraram evidência de savanização na área monitorada. O ecólogo Rafael Silva Oliveira, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e também autor do artigo, disse que a floresta se degradou e depois voltou, embora mais empobrecida em espécies. Na avaliação dele, modelos climáticos foram importantes para alertar sobre riscos à Amazônia, mas simplificaram ecossistemas tropicais ao reduzi-los à oposição entre floresta e savana.
Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização.
A pesquisa ressalta, porém, que a recuperação observada não reduz a gravidade dos impactos do aquecimento global. Pelo contrário: áreas já degradadas tendem a ser mais frágeis diante de secas, incêndios e eventos extremos, além de sofrerem efeitos sobre serviços ecossistêmicos essenciais, como regulação da água e captura de carbono. Nesse contexto, os autores defendem que compreender como a floresta reage a múltiplos estresses é fundamental para orientar estratégias de conservação e mitigação.