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Chumbo em Nova Jersey: Único testador do bairro se forma e deixa moradores sem testes

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O estudante de doutorado Sean Stratton tornou-se a única linha de defesa contra a contaminação por chumbo para dezenas de famílias em Trenton, Nova Jersey, nos Estados Unidos. Durante os últimos dois anos, o pesquisador da Rutgers University realizou testes gratuitos em mais de 140 residências na região, avaliando água, solo e tintas para detectar o metal pesado. No entanto, sua formatura programada para o próximo mês de maio ameaça interromper esse trabalho vital, deixando uma comunidade vulnerável sem acesso a diagnósticos ambientais precisos e acessíveis.

De acordo com informações do Grist, a moradora Kim Booker, que vive na cidade há cerca de 27 anos, apenas descobriu o risco por meio de reuniões organizadas pela East Trenton Collaborative. A organização sem fins lucrativos atua com questões de saúde e segurança ambiental na antiga potência industrial americana.

Com um histórico familiar de Alzheimer em sua avó e irmã — uma condição que pesquisadores associam à exposição crônica ao metal —, Booker desejava saber se o ambiente de sua casa com três quartos estava envenenando sua família. Através da liderança comunitária de Shereyl Snider, ela foi conectada ao projeto de dissertação de Stratton no final do ano passado. Os exames confirmaram os temores da residente: havia presença do elemento na corrente sanguínea, e o solo do quintal apresentava mais de 450 partes por milhão, número que supera o limite de risco estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos.

Como o sistema de testagem atua na ausência do pesquisador?

A oferta oficial de monitoramento preventivo e unificado inexiste no bairro. Análises completas como as fornecidas pelo estudante universitário possuem um custo de mercado superior a US$ 1 mil. Diante da falta de varreduras domiciliares sistemáticas, o projeto acadêmico estruturou o retrato mais coeso da crise que afeta a região até o momento.

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Embora a EPA tenha adicionado todo o bairro de East Trenton à sua Lista de Prioridades Nacionais do Superfund em julho do ano passado, devido à contaminação generalizada no solo residencial, escolas e parques, nenhum esforço governamental de testagem porta a porta foi implementado. Essa lacuna força os moradores a depender de iniciativas voluntárias e acadêmicas para mapear o risco dentro de suas próprias propriedades.

O próprio pesquisador reconhece a fragilidade do modelo atual de monitoramento em saúde pública.

A cidade não deveria depender de um estudante para fazer esse trabalho.

Com a defesa de sua dissertação concluída em fevereiro, grupos comunitários enfrentam um futuro incerto. Segundo Snider, a comunidade deseja manter a parceria, mas a continuidade do monitoramento depende essencialmente de grandes apoiadores financeiros.

Quais são os principais desafios estruturais enfrentados pelo estado?

Nova Jersey carrega um dos maiores fardos históricos de contaminação do país. O cenário estrutural é composto por diversos fatores de risco documentados pelas autoridades sanitárias locais e federais:

  • Aproximadamente 350 mil linhas de serviço de chumbo ativas no estado.
  • Posição entre os dez estados americanos com maior volume desse problema estrutural, atrás de Illinois e Texas.
  • Recebimento de mais de US$ 100 milhões em fundos federais que cobrem apenas a troca de canos, sem focar no solo ou em tintas internas residenciais.

As opções oferecidas pelo poder público são fragmentadas. O departamento de saúde estadual realiza inspeções em superfícies pintadas apenas depois que uma criança já foi diagnosticada com intoxicação. Embora testes sejam gratuitos para crianças de um e dois anos de idade sem seguro de saúde, crianças mais velhas e adultos precisam arcar com as próprias despesas preventivas. A empresa Trenton Water Works fornece kits de análise hídrica, mas os moradores devem coordenar e pagar o laboratório privado, com custos que variam de US$ 20 a US$ 100.

Por que projetos acadêmicos são fundamentais na saúde ambiental?

O trabalho realizado em East Trenton exemplifica um padrão mais amplo nos Estados Unidos, onde comunidades recorrem a pesquisadores universitários quando o monitoramento governamental é insuficiente. O sistema atual falha frequentemente em entregar dados completos. A moradora Amber DeLoney-Stewart relatou nunca ter recebido os resultados da inspeção municipal em sua casa, mesmo após exames de sangue indicarem níveis do metal no organismo de seu filho.

Para executar suas atividades de campo, o projeto contou com subsídios do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental e financiamento direto do governo federal. Brian Buckley, diretor executivo do instituto da Rutgers, explicou que a instituição viu alguns subsídios serem totalmente rescindidos recentemente em meio a cortes governamentais, embora as verbas de Stratton tenham sobrevivido. A dependência de financiamentos temporários significa que descobertas críticas podem cessar bruscamente quando o dinheiro acaba ou o pesquisador se forma.

A trajetória investigativa do doutorando começou após sua graduação em ciências ambientais no ano de 2015. Trabalhando com consultoria e elaboração de estratégias de remediação, ele acompanhou de longe a crise de saúde pública em Flint, no Michigan, onde mais de 140 mil pessoas foram expostas ao perigo por conta da água corrosiva. Quando um amigo pediu para testar sua casa em Nova Jersey, os resultados mostraram mais de 78 partes por bilhão — um índice mais de cinco vezes superior ao nível de ação estabelecido pela agência ambiental americana, fato que impulsionou a pesquisa domiciliar contínua que agora chega ao fim.

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