Um novo relatório científico divulgado nesta semana aponta que a Europa enfrentou em 2025 condições climáticas sem precedentes históricos, com temperaturas recordes, incêndios florestais devastadores, derretimento acelerado de geleiras e secas generalizadas. O documento, publicado conjuntamente pelo Serviço Copernicus de Mudanças Climáticas do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), conclui que os impactos das mudanças climáticas não são uma ameaça futura, mas uma realidade presente e devastadora.
De acordo com informações do portal Earth.Org, o relatório anual State of the Climate: Europe documenta como praticamente todo o continente europeu foi afetado por extremos climáticos ao longo de 2025, ameaçando vidas humanas, ecossistemas frágeis e a biodiversidade regional.
Qual foi a extensão do calor recorde na Europa em 2025?
Os dados são alarmantes: 95% do território europeu registrou temperaturas acima da média histórica em 2025. Países do norte do continente, como Reino Unido, Noruega e Islândia, viveram o ano mais quente já registrado em suas séries históricas. Irlanda, Suécia e Finlândia tiveram o segundo ano mais quente de suas histórias. Na Europa sudoeste, a situação foi igualmente grave.
A Espanha registrou o verão mais quente desde o início dos registros de temperatura, em 1961, com 33 dias de ondas de calor que também atingiram Portugal. Esses eventos extremos alimentaram incêndios florestais destruidores na Península Ibérica entre julho e agosto. Ao longo de toda a Europa, o fogo consumiu uma área recorde de 1.034.550 hectares, segundo o relatório.
Por que a Europa é o continente que aquece mais rápido no mundo?
A Europa é apontada como o continente que se aquece mais rapidamente no planeta, em ritmo duas vezes superior à média global, resultado principalmente da queima de combustíveis fósseis. Entre 2000 e 2019, aproximadamente 489 mil pessoas morreram anualmente no mundo inteiro devido ao calor extremo. Na Europa, a mortalidade relacionada ao calor já aumentou cerca de 30% nas últimas duas décadas.
Especialistas alertam que o continente pode registrar três vezes mais mortes causadas pelo calor até o fim do século, caso medidas ambiciosas de adaptação não sejam implementadas em escala continental. Um estudo da World Weather Attribution concluiu que uma onda de calor recorde que atingiu cidades da Itália, Espanha, Portugal, França, Reino Unido, Grécia, Croácia e Hungria no final de junho e início de julho causou 2.300 mortes em dez dias. Desse total, 1.500 — ou 65% — não teriam ocorrido sem a intensificação promovida pelas mudanças climáticas, segundo os pesquisadores.
“Com o aumento das temperaturas, e os incêndios e secas generalizados, as evidências são inequívocas; as mudanças climáticas não são uma ameaça futura, são nossa realidade presente”, disse Samantha Burgess, Líder Estratégica para Clima do ECMWF.
Como os oceanos e fontes de água foram afetados na Europa?
A temperatura da superfície do mar europeu atingiu o maior nível já registrado em 2025. No Mediterrâneo, foi o segundo maior valor histórico. Um recorde de 86% dos mares europeus foi afetado por ondas de calor marinhas, sendo:
- 50% classificadas como “fortes”
- 30% como “severas”
- 6% como “extremas”
O aquecimento dos oceanos intensifica a acidificação marinha, a elevação do nível do mar e a alteração das correntes oceânicas, provocando a morte massiva de espécies marinhas e criando zonas mortas por depleção de oxigênio. Nos continentes, a pressão sobre as fontes de água doce também foi intensa: em maio, 53% da Europa estava em condições de seca, enquanto o fluxo dos rios ficou abaixo da média por 11 meses do ano em 70% do território continental.
Cidades como Madrid, Barcelona, Paris e Berlim estiveram entre as 20 metrópoles mundiais mais afetadas pelo aumento dos extremos de seca, segundo estudo encomendado pela organização sem fins lucrativos WaterAid, que analisou as 100 cidades mais populosas do mundo e outras 12 cidades, concluindo que 44% dos centros urbanos globais estão ficando mais secos.
O que está acontecendo com o gelo e as geleiras europeias?
As regiões mais frias da Europa — incluindo o Ártico e os Alpes — continuaram a aquecer em 2025, enquanto a área do continente com dias de inverno com temperaturas negativas encolheu. Durante uma onda de calor de duração recorde na Fenoescândia subártica, em julho, as temperaturas superaram 30°C em áreas próximas ou dentro do Círculo Ártico, atingindo o pico de 34,9°C em Frosta, na Noruega.
A cobertura de neve da Europa foi a terceira menor desde o início dos registros, em 1983 — aproximadamente 31% abaixo da média histórica. A massa das geleiras também recuou de forma preocupante: a Islândia sofreu a segunda maior perda de massa glaciar de sua história, enquanto a Calota de Gelo da Groenlândia perdeu 139 gigatoneladas de gelo — volume cerca de 1,5 vez maior do que o total de todas as geleiras dos Alpes europeus combinadas.
As consequências humanas são diretas: segundo o relatório, cada centímetro de elevação do nível do mar provocado por esse derretimento expõe 6 milhões de pessoas a mais ao risco de inundações costeiras.
Quais ações estão sendo cobradas dos governos europeus?
O relatório conclamou os países europeus a redobrarem seus esforços de adaptação e mitigação climática. O documento elogiou o compromisso da União Europeia com metas legalmente vinculantes para proteger a biodiversidade e restaurar ecossistemas em escala, incluindo a proteção de pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas até 2030 e de todos os ecossistemas em necessidade de recuperação até 2050.
A UE também tem investido em energia renovável, que em 2025 respondeu por 46,4% da eletricidade gerada no bloco. A energia solar atingiu um recorde de contribuição de 12,5%. Apesar dos avanços, cientistas e autoridades advertem que o ritmo das mudanças climáticas exige ações ainda mais urgentes e abrangentes para proteger populações, ecossistemas e economias de impactos cada vez mais severos.
“O sinal das mudanças climáticas permanece inequívoco em toda a Europa”, afirmou Dušan Chrenek, Conselheiro Principal para a Transição Digital Verde na Direção-Geral de Ação Climática da Comissão Europeia.