Uma pesquisa científica de longa duração revelou dados alarmantes sobre a captura de animais marinhos na costa de Camarões, na África Central. A situação reflete um desafio global de conservação que também atinge a costa brasileira, onde a pesca incidental é uma das principais ameaças às populações de tubarões e raias. Entre os anos de 2015 e 2023, biólogos e pescadores locais trabalharam de forma conjunta para catalogar 45 espécies diferentes que acabam nas redes de pesca do país. O levantamento evidenciou que 13 dessas espécies estão classificadas como criticamente ameaçadas de extinção, levantando graves preocupações sobre a capacidade de recuperação populacional desses predadores fundamentais para o ecossistema oceânico.
De acordo com informações do portal Mongabay, o estudo detalhado foi publicado recentemente na revista científica Environmental Biology of Fishes. A pesquisa é considerada o primeiro retrato minucioso sobre a diversidade de tubarões e raias na região, preenchendo uma lacuna histórica de dados que prejudicava as iniciativas de conservação e o manejo sustentável da pesca comercial e artesanal.
Como os pescadores ajudaram na coleta de dados científicos?
O projeto contou com a participação direta da comunidade costeira. Ojah Alfred, um pescador de 45 anos, atuou ao lado de mais de oitenta colegas de três regiões litorâneas diferentes. Munidos de telefones celulares, eles utilizaram o aplicativo Siren, uma plataforma de ciência cidadã, para registrar as imagens e as coordenadas geográficas dos animais marinhos capturados no mar ou trazidos para os mercados locais.
O biólogo marinho e conservacionista camaronês Aristide Takoukam Kamla lançou a ferramenta tecnológica no ano de 2015. O sistema permite o uso sem conexão com a internet, registrando automaticamente a localização e o horário das capturas. Posteriormente, as informações são enviadas e validadas por uma equipe de cientistas.
“Nunca imaginei que as fotos que tiro todos os dias de peixes com o aplicativo Sirens levariam à publicação deste ‘grande livro’”, relatou Ojah Alfred, referindo-se ao artigo recém-publicado.
Por que a captura desses animais marinhos é tão preocupante?
O cruzamento das informações enviadas pelo aplicativo com as pesquisas de campo realizadas em mercados de peixes revelou uma estatística sombria. Segundo Ghofrane Labyedh, pesquisadora líder do estudo e vice-presidente regional para a África do Grupo de Especialistas em Tubarões da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a esmagadora maioria das capturas afeta espécimes que ainda não atingiram a idade reprodutiva.
“Quase 90% das espécies são capturadas na fase juvenil”, alertou Ghofrane Labyedh. A pesquisadora explicou que retirar indivíduos do mar antes que eles possam se reproduzir diminui drasticamente a capacidade de a população se recuperar e se sustentar ao longo do tempo. Se esse padrão de pesca persistir, várias espécies poderão ser extintas em definitivo do ecossistema local.
Durante o período de análise, a equipe documentou um total de 7.097 espécimes. Desse montante, 5.353 eram raias e 1.744 eram tubarões. Entre os animais criticamente ameaçados que mais aparecem nos registros costeiros estão o peixe-viola-de-focinho-preto (Glaucostegus cemiculus) e o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini). Essa última espécie, por ser altamente migratória, também habita águas brasileiras e encontra-se na lista nacional de espécies ameaçadas de extinção gerenciada pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). O pescador Ojah Alfred notou que, enquanto os tubarões-martelo ainda são vistos com frequência em grupos e acabam acidentalmente nas redes, o peixe-viola tornou-se uma visão cada vez mais rara na região.
Quais são as soluções propostas para a conservação das espécies?
A ausência de legislações específicas para proteger esses predadores no território camaronês agrava a crise ambiental. As águas do país enfrentam a pressão constante de atividades pesqueiras ilegais, não relatadas e não regulamentadas. Para reverter o declínio ecológico, os pesquisadores defendem uma série de medidas protetivas urgentes:
- Criação de leis rigorosas para proteger espécies em perigo crítico de extinção.
- Imposição de limites severos para as atividades da pesca industrial, especialmente a prática de arrasto de fundo.
- Conscientização dos pescadores artesanais para a devolução de filhotes vivos ao mar, uma vez que eles possuem baixo valor comercial.
- Aprimoramento contínuo da gestão das áreas marinhas protegidas que já existem.
- Designação e demarcação de novas zonas costeiras de preservação ecológica.
No futuro próximo, a equipe de cientistas planeja utilizar tecnologias avançadas para aprofundar o conhecimento biológico. A próxima fase do trabalho envolverá monitoramento acústico, análise de DNA ambiental e a marcação individual de animais. Esses passos inovadores serão cruciais para mapear áreas de reprodução, rastrear rotas migratórias e promover acordos internacionais de proteção, uma vez que a fauna marinha transita diariamente por águas que não respeitam fronteiras políticas.