A assistente social Ana Gabriela Mesquita Alves, de 43 anos, retomou integralmente suas atividades profissionais e acadêmicas após se tornar a primeira paciente a realizar um transplante de fígado pelo serviço especializado da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará. Diagnosticada com hepatite autoimune que evoluiu para um quadro de cirrose hepática, Ana Gabriela dependia da intervenção cirúrgica para sobreviver, após enfrentar um longo período de limitações físicas e internações recorrentes em Belém. De acordo com informações da Agência Pará, o sucesso do procedimento permitiu que a paciente recuperasse sua autonomia três anos após o marco histórico para a rede estadual de saúde.
Antes de ser submetida ao transplante, a rotina de Ana Gabriela era restrita a hospitais e unidades de terapia intensiva. A gravidade da doença a forçou a abandonar o trabalho e atividades recreativas, como a pintura de quadros. A busca pela cura levou a assistente social a se inscrever em filas de transplante em outros estados, como o Ceará, mas as restrições impostas pela pandemia de covid-19 e o surgimento do serviço especializado no Pará mudaram sua trajetória médica.
Como foi a trajetória da paciente até o transplante de fígado?
A paciente foi orientada pelo médico Rafael Garcia, responsável técnico do Serviço de Transplante de Fígado da Santa Casa, a aguardar a viabilização do serviço em território paraense. Na época, Ana Gabriela pesava apenas 53 quilos e apresentava um estado de saúde bastante debilitado. Após duas semanas de internação, a notícia do órgão compatível chegou em 26 de fevereiro de 2023. O fígado doado pertencia a uma jovem de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.
A recuperação inicial exigiu paciência e rigor médico. Após a cirurgia, a assistente social permaneceu três dias na UTI e dez dias em observação no quarto antes de receber a alta hospitalar. Os primeiros três meses foram marcados por dores e pela necessidade de isolamento social, uma vez que a baixa imunidade característica do pós-operatório exigia cautela extrema para evitar infecções.
Qual a importância da doação de órgãos para a sobrevivência dos pacientes?
Para Ana Gabriela, o transplante representa um ato de solidariedade que transcende a competência técnica da equipe médica e a infraestrutura hospitalar. Ela enfatiza que a sobrevivência de pacientes em lista de espera depende diretamente da compaixão de famílias que, mesmo em momentos de perda, optam por autorizar a doação. Sobre este processo, ela relata:
“Eu tinha pouco tempo de vida, estava muito debilitada, e se não fosse a solidariedade, o amor, a compaixão dos pais da minha doadora, num momento de muita dor, eu não teria sobrevivido.”
Atualmente, a assistente social mantém uma vida ativa, frequentando a academia, realizando caminhadas e viagens, embora precise manter cuidados contínuos por ser imunossuprimida. Ela destaca a necessidade de maior conscientização da sociedade, lembrando que qualquer pessoa, independentemente da idade, pode vir a necessitar de um órgão em algum momento da vida.
Como funciona o sistema de transplantes e doação no Pará?
A Central Estadual de Transplantes (CET), vinculada à Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), atua continuamente para ampliar o número de procedimentos no estado. Uma das principais orientações aos cidadãos é a comunicação clara com a família sobre o desejo de ser doador. No Brasil, não é necessário o registro em documentos oficiais; a vontade do falecido, transmitida aos parentes, é o que garante a efetivação da doação.
A implementação do serviço de transplante hepático na Fundação Santa Casa eliminou a necessidade de pacientes paraenses se deslocarem para outras regiões do país em busca do tratamento. Contudo, a gestão estadual reforça que a estrutura técnica depende da conscientização populacional para reduzir as filas de espera.
Quais são os números de transplantes realizados no estado?
A produtividade do sistema de saúde paraense reflete o esforço das equipes multidisciplinares e a adesão das famílias ao programa de doação. Os dados oficiais detalham o volume de procedimentos realizados nos últimos anos:
Em 2024, o Pará registrou um total de 634 transplantes, distribuídos da seguinte forma:
- Córnea: 516 procedimentos
- Rim (doador falecido): 54 procedimentos
- Rim (doador vivo): 08 procedimentos
- Fígado: 12 procedimentos
- Medula óssea: 28 procedimentos
- Tecido osteomuscular: dez procedimentos
- Esclera: 06 procedimentos
Já no balanço de 2025, o estado contabilizou 464 transplantes:
- Córnea: 340 procedimentos
- Rim (doador falecido): 59 procedimentos
- Rim (doador vivo): 05 procedimentos
- Fígado: 16 procedimentos
- Medula óssea: 37 procedimentos
- Tecido osteomuscular: 05 procedimentos
- Esclera: 02 procedimentos
O aumento nos transplantes de fígado, que subiram de 12 para 16 entre os períodos analisados, demonstra a consolidação do serviço iniciado com o caso pioneiro de Ana Gabriela Mesquita Alves, fortalecendo a rede de alta complexidade no Pará.