O tempo que as fezes levam para atravessar o intestino pode estar associado a diferenças relevantes na microbiota intestinal e, por consequência, à saúde geral, segundo uma revisão científica publicada em 2023 na revista Gut. O trabalho, citado em reportagem publicada em 20 de abril de 2026, reuniu dados de dezenas de estudos com milhares de participantes, incluindo pessoas saudáveis e pacientes com condições como síndrome do intestino irritável, constipação e cirrose hepática. De acordo com informações da ScienceAlert, a análise foi liderada por Nicola Procházková e Henrik Roager, da Universidade de Copenhague, para investigar como o trânsito intestinal pode influenciar o ecossistema de microrganismos no trato digestivo.
Segundo o material, tempos mais lentos de trânsito intestinal e quadros de constipação já foram associados, em pesquisas anteriores, a distúrbios metabólicos, inflamatórios e também a doenças neurológicas, como o mal de Parkinson. A revisão procurou entender se esse fator, por vezes negligenciado, ajuda a explicar diferenças na composição e na atividade da microbiota intestinal, que é amplamente relacionada ao funcionamento do organismo.
O que a revisão científica observou sobre o trânsito intestinal?
A equipe reuniu pesquisas já publicadas que avaliaram tempo de trânsito intestinal, consistência das fezes, alimentação, composição da microbiota e metabólitos produzidos por esses microrganismos. Com isso, os pesquisadores compararam perfis de pessoas com trânsito intestinal mais rápido e mais lento.
O resultado descrito foi a existência de diferenças marcantes entre esses grupos. Pessoas com trânsito intestinal mais rápido apresentaram microbiotas distintas daquelas observadas em indivíduos com trânsito mais lento. Além disso, incluir esse dado nas análises melhorou a capacidade de prever características da microbiota intestinal, em comparação com avaliações baseadas apenas na dieta.
“By including gut transit time measurements in gut microbiome-related studies, we can advance our understanding of the links between the gut microbiome, diet, and disease,” the researchers write in their paper.
De acordo com a revisão, indivíduos com trânsito intestinal mais rápido tenderam a apresentar espécies de crescimento mais acelerado, associadas a dietas ricas em carboidratos e com menos gordura. Já os casos de trânsito mais lento, em alguns contextos, mostraram predomínio de espécies que prosperam com proteína. Tanto nos extremos de rapidez quanto nos de lentidão, a diversidade da microbiota foi menor do que em pessoas com tempos médios de trânsito intestinal.
Como o tempo de trânsito intestinal é medido nos estudos?
O texto informa que medir o trânsito intestinal vai além de registrar a frequência de evacuações. Alguns estudos usam cápsulas ingeríveis com sensores, capazes de acompanhar o trajeto pelo sistema digestivo. Outros recorrem à Escala de Bristol, ferramenta visual que classifica as fezes pela consistência, de formas mais duras a mais líquidas, como um indicativo indireto do tempo de trânsito.
Também há pesquisas que observam quanto tempo o organismo leva para eliminar substâncias ingeridas, como corante azul ou milho. Em todos os métodos, o objetivo é estimar por quanto tempo os resíduos alimentares permanecem no cólon. Segundo a revisão, quanto maior esse período, mais tempo as bactérias têm para fermentar o conteúdo, regular a acidez intestinal e produzir metabólitos com potencial de afetar a saúde.
Por que isso pode ser importante para prevenção e tratamento?
Os autores defendem que compreender melhor a relação entre microbiota e trânsito intestinal pode ajudar no desenvolvimento de novas abordagens para prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças. A hipótese apresentada é que o tempo de permanência do conteúdo intestinal possa influenciar como cada organismo responde a intervenções, como probióticos, suplementos e até medicamentos que interagem com o intestino.
O material também sugere uma possível explicação para o fato de orientações gerais sobre saúde intestinal não funcionarem da mesma forma para todos. Duas pessoas podem consumir a mesma refeição e apresentar resultados diferentes, em parte por causa do ritmo intestinal individual.
“Such insights may be key for the prevention, diagnosis, and treatment of several diseases in the gut and beyond throughout the lifespan.”
Com base nessa análise, os pesquisadores argumentam que o tempo de trânsito intestinal é uma variável importante para entender a interação entre dieta, microbiota e doença. A revisão foi publicada em 2023 na revista Gut e voltou a ser destacada em reportagem de 2026 por seu potencial de ampliar a compreensão sobre a saúde intestinal e seus efeitos no organismo.
- A revisão reuniu dados de dezenas de estudos
- Os trabalhos envolveram milhares de participantes
- Foram analisados trânsito intestinal, dieta, microbiota e metabólitos
- Os autores apontam possível impacto em prevenção, diagnóstico e tratamento