Um levantamento recente realizado com 106 executivos de companhias nacionais e multinacionais revelou que apenas 38% das organizações possuem políticas e estruturas consistentes voltadas para a preservação da saúde mental de seus colaboradores. O estudo ganha relevância diante da proximidade da entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passará a exigir que as empresas incluam riscos psicossociais em seus inventários de riscos organizacionais. Atualmente, a maioria das instituições brasileiras ainda não trata o bem-estar psicológico como uma prioridade estratégica de governança.
De acordo com informações do Valor Econômico, a pesquisa contou com a participação de profissionais de alto escalão, sendo que 52,8% dos entrevistados ocupam posições de C-level ou diretoria. O resultado aponta para um descompasso entre a discussão teórica sobre o tema, que tem crescido nos últimos anos, e a implementação prática de mecanismos que garantam um ambiente de trabalho saudável e seguro do ponto de vista emocional.
O que muda para as empresas com a atualização da NR-1?
A atualização da NR-1 representa um marco na legislação trabalhista brasileira ao formalizar a necessidade de gestão dos riscos psicossociais. Até então, as diretrizes de segurança e saúde no trabalho focavam majoritariamente em perigos físicos, biológicos ou químicos. Com a nova redação, as empresas passam a ser responsáveis por identificar fatores de estresse, sobrecarga e assédio que possam comprometer a integridade mental dos funcionários. A negligência desses fatores pode resultar em sanções administrativas e aumento do passivo trabalhista.
Apesar dessa pressão regulatória, o levantamento indica que a transição para um modelo de gestão que contemple a saúde mental de forma estruturada ainda é lenta. A resistência em elevar o tema ao nível de governança corporativa impede que os recursos sejam alocados de maneira eficiente, muitas vezes limitando as ações a iniciativas pontuais e reativas, em vez de programas preventivos e perenes que permeiem toda a cultura organizacional.
Qual é o papel da alta liderança na transformação desse cenário?
O perfil dos participantes da pesquisa, com mais da metade em cargos de C-level, sugere que as lideranças estão cientes da problemática, embora a execução ainda encontre barreiras. A governança corporativa exige que temas como a saúde mental saiam exclusivamente do departamento de Recursos Humanos e passem a ser discutidos no conselho de administração. Quando o bem-estar é visto como um ativo de produtividade e sustentabilidade, as chances de implementação de políticas eficazes aumentam significativamente.
Os principais pontos destacados pelo levantamento sobre o cenário atual nas empresas incluem:
- Apenas 38% das organizações mantêm estruturas de saúde mental robustas e consistentes;
- Mais de 60% das empresas ainda não integraram o bem-estar emocional aos seus pilares de governança;
- Cerca de 106 executivos foram consultados para o diagnóstico do setor;
- A fatia de 52,8% dos respondentes em cargos de diretoria indica que o topo da pirâmide reconhece o tema, mas falha na estruturação técnica.
Portanto, a adequação às novas normas regulamentadoras não deve ser encarada apenas como uma obrigação legal, mas como uma oportunidade para as empresas brasileiras reduzirem o absenteísmo e melhorarem o clima organizacional. A estruturação de políticas sólidas é o primeiro passo para reverter a estatística de que apenas uma minoria das companhias está preparada para os desafios psicossociais do mercado de trabalho moderno.