Cientistas investigam o sangue menstrual como uma fonte rica de informações sobre a saúde reprodutiva feminina, com potencial para diagnosticar condições como endometriose, câncer de endométrio e distúrbios imunológicos. Segundo reportagem publicada pelo UOL Notícias em março de 2026, a pesquisa conduzida por instituições dos Estados Unidos, como a NextGen Jane e os Feinstein Institutes for Medical Research, busca desenvolver testes não invasivos que substituam procedimentos cirúrgicos tradicionais, como a laparoscopia. No Brasil, a endometriose também é diagnosticada com base em avaliação clínica, exames de imagem e, em alguns casos, cirurgia, o que ajuda a explicar o interesse em métodos menos invasivos.
O fluido menstrual contém células, hormônios e proteínas exclusivas que oferecem uma visão abrangente do útero. O sangue menstrual, composto por cerca de 50% de sangue comum e o restante por tecido endometrial, bactérias, hormônios e células do trato reprodutivo, é descartado mensalmente por milhões de pessoas. No entanto, sua análise pode revelar alterações moleculares associadas a doenças crônicas. Emma Backlund, uma estudante de pós-graduação de Minnesota, participou de um estudo da NextGen Jane após sofrer por 13 anos com sintomas intensos antes de ser diagnosticada com endometriose — condição que afeta cerca de 190 milhões de pessoas globalmente.
Por que o sangue menstrual é tão valioso para a medicina?
“Você tem acesso a tipos de células e outras assinaturas moleculares que simplesmente não aparecem no sangue total, na saliva ou em outros tipos de amostras”, afirma Ridhi Tariyal, cofundadora e diretora-executiva da NextGen Jane. Ela descreve o fluxo menstrual como uma “biópsia natural” do sistema reprodutivo feminino. Diferentemente de uma biópsia endometrial convencional — que coleta apenas uma pequena fração do tecido uterino —, o sangue menstrual representa todo o endométrio descartado durante a menstruação, oferecendo uma amostra mais completa.
Christine Metz, bióloga reprodutiva dos Feinstein Institutes for Medical Research, explica que o material permite investigar diversas condições uterinas, incluindo adenomiose, endometrite e câncer de endométrio. Seus estudos já identificaram 385 proteínas exclusivas do sangue menstrual, além de alterações genéticas e celulares ligadas à endometriose. Como se trata de pesquisa feita nos Estados Unidos, eventuais testes citados ainda dependem de validação científica e de aprovação regulatória antes de qualquer adoção mais ampla, inclusive em outros países.
Quais biomarcadores já foram identificados?
As pesquisas revelaram que mulheres com endometriose apresentam níveis reduzidos de células “natural killer” uterinas — essenciais para a implantação embrionária e defesa contra infecções. Além disso, as células fibroblásticas do estroma endometrial mostram maior inflamação e menor capacidade de preparar o útero para a gravidez. Essas mesmas alterações também estão associadas à síndrome dos ovários policísticos (SOP) e abortos recorrentes.
- Redução de células natural killer uterinas
- Aumento de marcadores inflamatórios nas células estromais
- Alterações na expressão gênica específica do endométrio
- Presença de proteínas exclusivas no fluxo menstrual
A NextGen Jane já analisou mais de 2 mil amostras de 330 mulheres desde 2014 e, em maio de 2025, recebeu financiamento de US$ 2,2 milhões (R$ 11,56 milhões) para validar clinicamente um teste diagnóstico baseado em RNA mensageiro (mRNA) extraído do sangue menstrual. Christine Metz planeja solicitar à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de medicamentos e dispositivos médicos dos Estados Unidos, a aprovação de um kit de diagnóstico domiciliar até 2027.
