O saneamento básico continua com baixa presença no debate político eleitoral de 2026, apesar de seu impacto direto sobre saúde pública, meio ambiente e desenvolvimento econômico. No Brasil, cerca de 43% da população vive sem coleta de esgoto e 16% ainda não têm acesso à água potável, segundo dados citados em reportagem publicada em 10 de abril de 2026. De acordo com informações do Senado Federal, especialistas e representantes do setor apontam que o tema perde espaço em campanhas por envolver obras de longo prazo, alto custo e baixa visibilidade imediata para o eleitor.
Os dados mencionados na reportagem são do Instituto Trata Brasil, com base em levantamento de 2023 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, mantido pelo Ministério das Cidades. O texto informa ainda que quase metade do esgoto gerado no país não é tratada, com mais de 5 mil toneladas de dejetos lançadas diariamente em corpos d’água. Mesmo após a aprovação do novo Marco Legal do Saneamento, em 2020, o país ainda apresenta déficit significativo no acesso aos serviços.
Por que o saneamento básico aparece pouco nas eleições?
Segundo a reportagem, a menor presença do saneamento nas campanhas eleitorais está ligada a características próprias do setor. Intervenções como redes de esgoto e sistemas de drenagem não costumam ser percebidas com facilidade no cotidiano, ao contrário de outras políticas públicas mais visíveis. Além disso, a execução das obras frequentemente ultrapassa mandatos, o que dificulta a associação direta entre a entrega e a gestão responsável.
O especialista em marketing político e organização de campanhas eleitorais Deividi Lira afirmou que o saneamento ainda ocupa um espaço secundário nos debates eleitorais no Brasil. Ele disse que a pauta costuma aparecer de forma pontual e, em geral, inserida em temas mais amplos, como infraestrutura ou qualidade de vida.
“O saneamento básico ainda ocupa um espaço secundário nos debates eleitorais no Brasil. Apesar de sua relevância para a saúde pública, o meio ambiente e o desenvolvimento econômico, o tema aparece de forma pontual nas campanhas municipais.”
De acordo com Lira, a baixa prioridade também está relacionada à pouca visibilidade das obras, à complexidade do setor e ao baixo apelo emocional do tema, fatores que dificultam o engajamento do eleitor e reduzem a pressão social sobre gestores públicos, sobretudo em áreas historicamente desassistidas.
Quais são as metas do marco legal e o tamanho do déficit?
O novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu como meta garantir, até o fim de 2033, acesso de 99% da população à água potável e de 90% à coleta e ao tratamento de esgoto. Passados cinco anos, a reportagem aponta indícios de avanço e recorde de investimentos, mas ressalta que o déficit permanece elevado.
O saneamento básico compreende um conjunto de serviços que inclui:
- abastecimento de água potável;
- esgotamento sanitário;
- limpeza urbana;
- gestão de resíduos sólidos;
- drenagem de águas pluviais.
A ausência ou insuficiência desses serviços afeta diretamente as condições de vida da população. Segundo dados do Painel Saneamento Brasil, do Trata Brasil, em 2024 foram registradas 336 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado e quase 5 mil mortes decorrentes dessas enfermidades. A reportagem informa que houve alta nesse período em razão de uma epidemia de dengue, com cerca de 49% das internações associadas a doenças transmitidas por inseto vetor.
Estudos do instituto indicam que, caso as metas de universalização sejam alcançadas até 2040, os ganhos acumulados podem superar R$ 1,4 trilhão, considerando efeitos diretos e indiretos. Além do impacto sanitário, o texto destaca reflexos sobre produtividade econômica, valorização imobiliária e preservação ambiental.
O que representantes do setor defendem para ampliar a prioridade do tema?
A presidente-executiva do Trata Brasil, Luana Siewert Pretto, defende que o saneamento ganhe centralidade no debate público, especialmente em anos eleitorais, e integre de forma prioritária as agendas de futuros governantes. Ela também destacou a importância da conscientização da população sobre a transversalidade do tema.
“Precisamos ser mais conscientes sobre a importância do acesso à água tratada e à coleta e ao tratamento de esgoto, para que a população entenda que o saneamento pleno pode mudar a vida das próximas gerações.”
A diretora-presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto, Christianne Ferreira, afirmou que o tema não pode sair da agenda política e que os parlamentares precisam acompanhar com atenção os projetos em tramitação no Congresso. Segundo ela, mudanças mal avaliadas podem comprometer o trabalho feito na construção do marco legal.
O senador Alan Rick, do Republicanos do Acre, também defendeu que candidatos apresentem propostas para a ampliação do saneamento básico e que a sociedade cobre esse compromisso durante o processo eleitoral. A avaliação presente na reportagem é que a incorporação do tema como prioridade política ainda depende não apenas de recursos ou de marcos regulatórios, mas também de maior pressão social e presença efetiva nas campanhas.