A flor oficial do estado norte-americano da Geórgia, conhecida popularmente como Rosa Cherokee, tornou-se o centro de um debate cultural e botânico neste mês de abril de 2026. A planta, cientificamente chamada de Rosa laevigata, foi adotada como símbolo estadual sob a crença de que seria nativa da região e intrinsecamente ligada ao povo indígena Cherokee. No entanto, pesquisas históricas e genéticas revelam que a espécie é originária da Ásia Oriental, motivando um movimento atual liderado por comunidades nativas e especialistas para substituir a homenagem por uma planta verdadeiramente local, como a magnólia Sweetbay.
De acordo com informações do Inside Climate News, a reverência pela flor está baseada em mitos criados durante o processo de colonização territorial. Tony Harris, um ancião da comunidade indígena e membro da Aliança Comunitária Cherokee da Geórgia, gerencia um jardim botânico focado na preservação da cultura nativa nos arredores de Atlanta. Ele apoia ativamente a mudança do símbolo estadual, argumentando que a planta atual é uma espécie invasora cujo histórico está historicamente entrelaçado com a exploração de terras e narrativas distorcidas.
Qual é a verdadeira origem da Rosa Cherokee?
A história da documentação científica da planta começou no final do século dezoito, quando o botânico francês André Michaux viajou pela Geórgia. Ele registrou a flor branca crescendo em vinhas densas e espinhosas. Acreditando tratar-se de uma espécie nativa, nomeou-a como Rosa laevigata, que significa “rosa polida”. A tradição local rapidamente associou a planta ao território indígena da porção norte do estado, consolidando o nome popular que perdura até os dias de hoje.
Contudo, menos de duas décadas depois de seu registro inicial, cientistas começaram a questionar essa narrativa. Em 1821, o banqueiro e botânico Stephen Elliott notou que a origem da planta era obscura, apesar de ser amplamente cultivada na região. Posteriormente, em meados do século dezenove, o renomado botânico de Harvard, Asa Gray, relatou que exploradores haviam documentado a mesma espécie crescendo na China. Análises genéticas modernas confirmaram de forma irrefutável as raízes no leste asiático. Historiadores e pesquisadores apontam que a espécie provavelmente chegou à América do Norte através de:
- Rotas de comércio marítimo antes da Guerra Revolucionária Americana;
- Bens transportados por colonizadores europeus e comerciantes;
- Desembarques botânicos no porto de Savannah, na Geórgia.
Como surgiu o mito ligando a flor aos povos indígenas?
Em 1916, os legisladores estaduais oficializaram a planta como símbolo da Geórgia, redigindo uma resolução oficial que afirmava erroneamente que ela tinha origem entre os aborígenes da porção norte do estado e era indígena ao seu solo. Essa oficialização política foi impulsionada por uma lenda dramática e amplamente disseminada na época. O mito afirmava que, durante a remoção forçada das tribos na década de 1830, rosas brancas brotaram exatamente onde as lágrimas das mulheres nativas caíram ao longo do percurso macabro conhecido como a Trilha das Lágrimas. Segundo a narrativa popular inventada, as sete pétalas representariam os sete clãs da tribo e o centro amarelo simbolizaria a terra natal perdida para sempre.
Para o líder Tony Harris, essa narrativa é uma distorção romântica criada pelos próprios colonizadores, configurando uma espetacularização irreal do sofrimento nativo ocidental. A tradição oral e os registros históricos autênticos indicam que a planta não possuía nenhum significado cultural genuíno para a tribo antes da remoção forçada, que resultou na morte de milhares de pessoas entre os mais de cem mil nativos deslocados por autoridades estaduais e federais.
“Eles não tinham rosas Cherokee com eles durante a Trilha das Lágrimas. Eles tiveram sorte de ter as roupas do corpo e algumas sementes de vegetais de seus jardins”
afirmou Harris ao descrever as duras condições reais da tragédia histórica imposta ao seu povo.
Qual foi o papel da planta durante o período de escravidão?
Longe de ser um emblema de resistência ou memória indígena, a planta se tornou uma ferramenta estritamente prática e de controle para os donos de plantações no sul dos Estados Unidos. Devido ao seu crescimento extremamente rápido e aos galhos cheios de espinhos afiados, tornou-se comum o uso da espécie asiática para formar cercas vivas impenetráveis. Os latifundiários utilizavam a vegetação exótica para demarcar limites de propriedades de forma barata, conter rebanhos de animais e ornamentar as vastas propriedades rurais da elite sulista.
Todo esse trabalho pesado de plantio e manutenção das cercas densas nas fazendas era realizado predominantemente por trabalhadores escravizados sob condições desumanas. Enquanto a planta se enraizava na paisagem agrícola e no imaginário do chamado “Velho Sul”, ganhando status de romance para os colonizadores brancos, a população original enfrentava a crescente e violenta pressão governamental que culminaria em sua expulsão definitiva das terras sulistas. O movimento atual em torno do jardim em Atlanta busca corrigir essa dura ironia histórica, exigindo que o símbolo de identidade do estado reflita plantas com verdadeira ligação ecológica, nativa e cultural com a região geográfica.