A criminalização de protestos climáticos diretos no Reino Unido pode ter efeito contrário ao pretendido e aumentar a disposição de ativistas para novas ações disruptivas, segundo um estudo com 1.375 integrantes de uma lista de e-mails da Extinction Rebellion, publicado na revista Nature Climate Change. A pesquisa analisou como prisões, multas, vigilância e penas de detenção afetam a reação dos manifestantes e concluiu que a repressão pode reduzir o medo de parte deles e fortalecer a intenção de voltar a protestar. De acordo com informações do Guardian Environment, os dados foram divulgados neste 25 de abril de 2026.
O levantamento indica que a resposta emocional dos ativistas é decisiva para entender o impacto da repressão. Entre os que já haviam sido presos, multados, detidos ou monitorados, a tendência relatada foi de menor receio em participar de futuras ações disruptivas. Já entre aqueles que ainda não haviam passado por repressão, a pesquisa identificou dois grupos principais: os que reagiam com raiva ou desprezo diante da possibilidade de punição, tornando-se mais dispostos a agir, e os que sentiam mais medo, reduzindo sua intenção de participar.
O que o estudo identificou sobre o efeito da repressão?
Segundo a reportagem, os autores afirmam que prisões, multas e sentenças longas aplicadas a manifestantes climáticos não violentos que bloquearam estradas ou danificaram prédios podem, na prática, radicalizá-los. O trabalho também sugere que a repressão ao protesto pode estar entre os fatores por trás de ações mais discretas e clandestinas registradas recentemente, como o corte de cabos de internet.
A pesquisa procurou responder a um debate anterior da literatura acadêmica, que apresentava resultados conflitantes: alguns estudos apontavam que a repressão desestimula novos protestos, enquanto outros indicavam o oposto. Neste novo levantamento, a variável central passou a ser a emoção gerada pela experiência, ou pela expectativa, de punição estatal.
A equipe responsável pelo estudo reúne pesquisadoras da University of St Andrews. A reportagem destaca a avaliação da pesquisadora Nicole Tausch sobre o afastamento entre manifestantes e Estado.
“These kinds of actions are counterproductive as they alienate people from the state,” said Dr Nicole Tausch, at the University of St Andrews and part of the study team.
“[Repression] might actually radicalise people – if you don’t give people the legitimate route to express their discontent, then they will find other routes.”
Como o governo britânico e outras instituições aparecem nesse debate?
Nos últimos anos, o governo do Reino Unido endureceu sua resposta a protestos climáticos. A reportagem cita casos de manifestantes condenados a quatro anos de prisão por planejarem bloquear uma rodovia e menciona restrições à possibilidade de apresentar diante do júri uma defesa baseada em “desculpa razoável” ou em fatos ligados à crise climática.
O texto também lembra que a relatora especial da ONU para defensores de direitos humanos, Mary Lawlor, acusou recentemente Reino Unido, Estados Unidos e outros governos de fazerem declarações favoráveis às metas climáticas ao mesmo tempo em que criminalizam ativistas. Outro dado mencionado é que 17% de todos os protestos climáticos entre 2019 e 2024 resultaram em prisões, acima da média internacional de 6,3%.
Em resposta ao tema, um porta-voz do Home Office declarou que o direito ao protesto legal é fundamental para a democracia britânica, mas afirmou que manifestações não devem ultrapassar o limite entre demonstração pacífica e perturbação grave. Segundo essa posição, as leis atuais dão à polícia poderes para administrar protestos e prevenir desordem, interrupção e intimidação, ao mesmo tempo em que protegem o direito ao protesto pacífico.
Quais sinais de mudança no ativismo climático foram apontados?
A pesquisadora Sunniva Davies-Rommetveit, também da University of St Andrews, afirmou que já é possível observar formas diferentes de ação, incluindo sabotagem. Na avaliação dela, a repressão pode estar empurrando parte dos ativistas para métodos mais encobertos. A reportagem também ressalta que o impacto mais forte foi observado justamente entre os que já haviam vivido situações de repressão.
“It was very striking,” said Davies-Rommetveit. “They feel less fearful and therefore more likely to intend to act disruptively in the future.”
Ela também defendeu que formuladores de políticas públicas ouçam ativistas climáticos, especialmente diante do agravamento da crise climática. Segundo a pesquisadora, os resultados mostram frustração com a forma como o sistema vem lidando com protestos.
O debate ocorre em meio a uma opinião pública dividida. Uma pesquisa de 2023 encomendada pela University of Bristol, citada pela reportagem, mostrou que 68% dos britânicos desaprovavam o grupo Just Stop Oil, conhecido por bloquear estradas e interromper eventos esportivos. Ainda assim, apenas 29% consideravam a prisão a punição mais adequada para protestos disruptivos e não violentos.
- 37% apontaram multa como punição mais adequada.
- 15% disseram que esses ativistas não deveriam receber punição.
- Uma revisão independente da legislação sobre ordem pública e crimes de ódio foi encomendada por ministros britânicos.
Essa revisão deverá avaliar se as normas atuais são adequadas e se mantêm equilíbrio entre liberdade de expressão, direito de protesto e necessidade de prevenir desordem e proteger comunidades. A publicação do parecer é esperada em breve, segundo a reportagem.