Em abril de 2026, um ano após o governo dos Estados Unidos implementar o projeto tarifário conhecido como “Dia da Libertação”, a promessa de resgatar o setor industrial do país não se concretizou. De acordo com informações da Folha de S.Paulo, baseadas em análises da revista The Economist, a política promovida por Donald Trump gerou perdas de empregos nas fábricas e uma série de conflitos comerciais e jurídicos, culminando em derrotas significativas na Suprema Corte estadunidense desde a implementação da medida no início de 2025.
A Casa Branca defendia que os custos mais altos gerados pelas tarifas valeriam a pena para reverter décadas de declínio na manufatura norte-americana. No entanto, os resultados demonstram um cenário diferente. Desde que o atual presidente assumiu o cargo, em janeiro de 2025, as indústrias eliminaram cerca de 100 mil postos de trabalho. Em contrapartida, os demais setores da economia norte-americana registraram a criação de 300 mil vagas no mesmo período.
Quais foram os reais impactos da política tarifária na produção industrial?
O efeito prático na produção foi classificado como irrelevante por analistas de mercado. Dados divulgados pelo Instituto para Gestão da Oferta indicam que o setor manufatureiro operou em estado de recessão durante a maior parte de 2025. Embora a produção de bens tenha apresentado uma leve elevação no início de 2026, os números apenas retornaram aos patamares registrados há alguns anos.
O crescimento modesto observado na indústria concentrou-se em segmentos muito específicos que receberam estímulos diretos. Entre os setores que impulsionaram esses índices, destacam-se:
- O setor aeroespacial, que acelerou a produção após o fim de greves e a resolução de falhas de segurança.
- A área de computadores e eletrônicos, amplamente subsidiada pela legislação nacional aprovada anos antes.
- A indústria farmacêutica, impulsionada pelo expressivo aumento na demanda por tratamentos para obesidade.
Como os empresários avaliam o cenário comercial após as mudanças?
Apesar dos argumentos governamentais de que a recuperação industrial demanda décadas, grande parte do empresariado encara a guerra comercial como um obstáculo, e não como uma vitória. Relatórios elaborados pelo Instituto para Gestão da Oferta a partir de pesquisas com administradores de indústrias revelam que as menções às tarifas impõem um tom predominantemente negativo ao ambiente de negócios. O excesso de burocracia, a instabilidade e as constantes alterações nas regras geraram desgastes significativos no setor privado.
Um reflexo direto dessa dificuldade é relatado por gestores de pequenas empresas, que precisam alocar recursos expressivos apenas para garantir que estão cumprindo as novas normas. Julie Robbins, diretora da EarthQuaker Devices, uma fabricante de pedais de guitarra sediada no estado de Ohio, calculou que a burocracia tarifária consumiu 400 horas de trabalho de sua equipe em apenas um ano de vigência da lei.
Cada hora gasta navegando nisso é tempo que não podemos dedicar a coisas úteis para fazer o negócio crescer.
Quais são as perspectivas operacionais para as empresas norte-americanas?
As incertezas jurídicas agravam ainda mais a situação dos produtores locais. Decisões judiciais proferidas em 2026 determinaram que diversas taxas aplicadas pelo governo eram ilegais, ordenando reembolsos. Contudo, devido à complexidade da cadeia de suprimentos, empresas de menor porte dificilmente conseguirão reaver esses valores. O dinheiro deverá ser direcionado aos atacadistas que importaram formalmente as peças, mesmo que os custos tenham sido repassados integralmente aos fabricantes finais.
Além disso, a instabilidade legislativa afasta investimentos de longo prazo. O planejamento estrutural de novas fábricas exige de cinco a dez anos para ser concluído. Projetos que dependem exclusivamente das atuais barreiras protecionistas correm o risco de se tornarem prejuízos irrecuperáveis caso uma nova administração reduza as taxas no futuro. Dados de entidades industriais apontam que apenas uma pequena parcela das fábricas está efetivamente planejando expansões no atual cenário econômico.
Outro desafio monumental refere-se à taxação de matérias-primas importadas. Mesmo as companhias que concentram sua mão de obra em território estadunidense dependem de componentes vindos do exterior, como interruptores e conectores eletrônicos. As tarifas impostas sobre o aço tornaram-se uma ameaça particular à competitividade nacional, visto que o país consome um volume muito superior à sua própria capacidade produtiva, encarecendo os custos finais para toda a cadeia do setor. Para o Brasil, que figura historicamente entre os maiores fornecedores de aço semiacabado para os Estados Unidos, essa política de barreiras e sobretaxas gera apreensão direta, pois impacta diretamente o fluxo de exportações da balança comercial brasileira.