A morte do indígena Sandro Barreto Andrade, de 19 anos, e o ferimento de Domingos Sávio Caldas Barreto após uma ação do Exército no Rio Papuri, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, seguem sem esclarecimento três meses depois do caso. O episódio ocorreu em 8 de janeiro de 2026, e, até 22 de abril, não havia informação pública sobre a conclusão da sindicância militar nem confirmação de investigações por parte da Polícia Federal ou do Ministério Público Federal. De acordo com informações da Sumaúma, documentos da Funai relatam medo e insegurança coletiva entre os indígenas Hupd’äh da comunidade Vila Fátima.
Segundo a reportagem original, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai, registrou em documentos internos que moradores da comunidade afirmaram que as vítimas estavam pescando quando foram atingidas por disparos. Esse relato difere da versão apresentada pelo Exército, que informou ter atirado contra uma embarcação após, segundo os militares, receber tiros vindos dela durante uma abordagem feita no contexto de proteção do território contra crimes transnacionais.
O que se sabe sobre o caso no Rio Papuri?
Conforme o relato citado pela Sumaúma, Sandro Barreto Andrade foi encontrado morto um dia e meio após o tiroteio, na beira do Rio Papuri, com ferimento por arma de fogo. Já Domingos Sávio Caldas Barreto foi localizado com um tiro na perna, passou por cirurgia em Manaus e estava em recuperação. A ocorrência se deu em uma área habitada pelo povo Hupd’äh, e os documentos da Funai apontam que o caso provocou interrupção de atividades de subsistência, como caça e pesca, devido ao medo na comunidade.
Um dos relatórios obtidos pela reportagem afirma que Sandro e Domingos faziam pesca de piabas com mosquiteiros quando foram baleados por disparos vindos da margem brasileira. Ainda segundo esse documento, servidores da Funai e indígenas encontraram no local 52 cápsulas de fuzil, duas de revólver e marcas de projéteis em árvores e pedras, elementos que, de acordo com o texto, indicariam disparos efetuados de cima para baixo, e não em direção a supostas embarcações no canal do rio.
Como está a apuração das autoridades?
Até a conclusão da reportagem original, persistiam dúvidas sobre a dinâmica do episódio e sobre o andamento das apurações oficiais. O caso estava sob investigação do Exército por meio de uma sindicância interna aberta pelo Comando Militar da Amazônia, sem prazo de conclusão informado. O Ministério Público Federal no Amazonas disse que estava colhendo informações, mas não esclareceu se havia investigação formal em curso. A Polícia Federal no Amazonas, segundo a Sumaúma, não respondeu ao questionamento sobre eventual abertura de inquérito.
Os documentos também mostram tensão em torno da tentativa de colher o depoimento de Domingos. De acordo com a Funai, houve insistência de militares para ouvi-lo mesmo após manifestação formal do sobrevivente de que não pretendia falar antes de estar plenamente recuperado física e psicologicamente. Em ofício enviado ao Exército, o órgão indigenista pediu a suspensão ou o adiamento da oitiva.
“é imprescindível que qualquer procedimento envolvendo indígenas observe sua autonomia de vontade, condições de saúde, mediação institucional e acompanhamento especializado, incluindo a presença de intérprete na língua do povo envolvido”
Quais foram os efeitos do caso sobre a comunidade indígena?
Em ata de reunião por vídeo realizada em 4 de março de 2026, com participação de representantes de órgãos do governo, incluindo Funai e Ministério dos Povos Indígenas, foi relatada a insistência do Exército, especificamente do 5º BIS, em tomar o depoimento de Domingos. Segundo o documento, o indígena já havia declarado que queria se concentrar na própria saúde. A reunião também discutiu a possibilidade de incluir Domingos e outros dois sobreviventes em programa federal de proteção a testemunhas.
A memória da reunião citada pela reportagem descreve que a presença contínua do Estado foi considerada necessária para garantir segurança aos Hupd’äh e permitir a retomada de atividades básicas de subsistência. O texto menciona ainda propostas de atuação da Funai, como:
- reativação de projetos de piscicultura;
- manejo de recursos naturais;
- oficinas de artesanato;
- mutirões de documentação;
- fortalecimento de práticas tradicionais com pajés e parteiras.
Em visita às aldeias de Fátima e Iauaretê, a Funai constatou, segundo a reportagem, que a família de Sandro Barreto estava em situação de grande vulnerabilidade. Após ouvir cerca de 30 indígenas, o órgão teria identificado um cenário de forte apreensão. Até o momento retratado no texto original, porém, a morte do jovem e os ferimentos no sobrevivente permaneciam sem resposta pública conclusiva das autoridades envolvidas.