Habitantes do distrito de Perus, localizado na Zona Norte de São Paulo, denunciam uma suspeita de fraude na primeira audiência pública realizada para discutir a instalação de um novo incinerador de lixo na região. O caso ilustra o crescente debate nacional em torno da Política Nacional de Resíduos Sólidos e dos impactos socioambientais da incineração de resíduos em áreas densamente habitadas no Brasil. O evento ocorreu no início da tarde de segunda-feira (30 de março), no Centro Educacional Unificado (CEU) Perus. De acordo com informações da Agência Brasil, a comunidade local acusa a organização de recrutar falsos moradores para lotar o espaço e impedir a participação popular contrária ao projeto.
Oficialmente nomeado como Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, o empreendimento é encabeçado pela empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga). Relatos apontam que ônibus desembarcaram dezenas de passageiros desconhecidos no bairro Vila Fanton pouco antes do início da consulta pública. Essas pessoas formaram filas, ocuparam a capacidade máxima do teatro do centro educacional e se inscreveram para discursar, supostamente com a intenção de bloquear os questionamentos e as críticas da verdadeira vizinhança.
Como funcionou o suposto esquema na audiência pública?
Uma pessoa ouvida pela reportagem original confirmou ter recebido compensação financeira para se passar por moradora do distrito durante o evento. A fonte, que costuma buscar trabalhos como figurante em programas de auditório da televisão aberta, relatou que um homem coordenava o grupo. Ele fornecia instruções precisas sobre como reagir a cada fala, indicando os momentos em que deveriam demonstrar concordância ou reprovação diante dos microfones.
Devido à lotação provocada pelo público trazido de fora, cerca de 500 moradores reais foram barrados. Mesmo com a instalação de dois televisores no saguão, o espaço foi insuficiente, deixando famílias inteiras e crianças aguardando sob chuva do lado de fora. Agentes da Guarda Civil Metropolitana formaram um bloqueio utilizando escudos e gás de pimenta para conter a população. A prefeitura, no entanto, negou o emprego de equipamentos de menor potencial ofensivo no local.
Quais são as reivindicações dos moradores e especialistas?
Após negociações intensas, apenas três representantes do povo indígena guarani mbya, oriundos da Terra Indígena do Jaraguá, conseguiram acessar o interior do auditório. O engenheiro químico Mario Bortoto, uma das lideranças do movimento comunitário, destacou que o modelo de incineração proposto é considerado obsoleto em diversos países. Ele manifestou preocupação com as cinzas tóxicas resultantes do processo e com o tráfego intenso de caminhões que agravaria as condições de mobilidade e saúde da área.
Bortoto ressaltou que a aprovação do complexo aprofundaria a crise no sistema público da região, que já sofre com o esvaziamento assistencial. A química e consultora da WWF Brasil, Thais Santos, corroborou as críticas sobre a falta de transparência da condução governamental.
“A audiência era para ser um espaço democrático. Só que o que a gente viu foi uma manipulação de informação, manipulação da audiência”
Em oposição à estrutura de tratamento de resíduos, os ativistas ambientais e os cidadãos locais defendem um projeto alternativo para a área. As propostas incluem:
- A criação do Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera;
- O fomento de agências de turismo focadas na valorização da natureza local;
- O afastamento de lógicas predatórias e a manutenção do histórico de resistência política da vizinhança.
Qual é o posicionamento das empresas e órgãos públicos?
O território possui um longo histórico de degradação ambiental e estigmatização, abrigando o antigo aterro sanitário Bandeirantes, que operou por 28 anos, além da Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco. Sobre o novo licenciamento, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) declarou que as ponderações registradas no encontro serão anexadas e avaliadas durante o processo técnico do Estudo e Relatório de Impacto Ambiental.
Por meio de um comunicado conjunto, a concessionária responsável e a administração municipal afirmaram que a moderna infraestrutura planejada não deve ser comparada aos antigos fornos de queima das décadas de 1970 e 1980.
“Trata-se de instalações modernas, que não oferecem riscos à saúde da população e são amplamente utilizadas, inclusive em áreas residenciais, em diversos países.”
As entidades alegam que a unidade integrará o futuro Ecoparque Bandeirantes, com a promessa de reduzir o volume de rejeitos encaminhados para aterros sanitários convencionais, além de prever a geração de energia e a criação de novos postos de emprego formais para a cidade de São Paulo.



