Uma investigação pública sobre o projeto de uma mina de ouro em Omagh, na Irlanda do Norte, será retomada na segunda-feira, 13 de abril, nove anos após a proposta ter sido apresentada e após uma década de conflito entre moradores, ativistas e a empresa Dalradian Gold. O plano prevê a extração de 3,5 milhões de onças de ouro ao longo de 20 a 25 anos em Curraghinalt, perto de Greencastle, numa área dos Sperrins. De acordo com informações do Guardian Environment, o impasse envolve preocupações ambientais, promessas de empregos e uma disputa profunda sobre o futuro da região.
A controvérsia gira em torno de uma das maiores reservas de ouro não exploradas do mundo, com valor estimado em pelo menos £21 bilhões apenas em ouro, segundo a reportagem. Para opositores, a mineração pode ameaçar rios, fauna e uma paisagem de forte vínculo cultural e familiar. Para a empresa, controlada por um grupo de investimentos de Nova York, o empreendimento pode gerar centenas de empregos, arrecadação tributária e uma cadeia de suprimentos avaliada em £1 bilhão.
Por que o projeto de mineração provoca tanta resistência em Greencastle?
Entre os rostos mais ativos da campanha contrária à mina está Fidelma O’Kane, aposentada da área de serviço social e docência, que vive há quase toda a vida na região rural de County Tyrone. Segundo a reportagem, o alerta inicial veio de uma vizinha que comentou sobre planos de perfuração em busca do ouro há muito mencionado nos Sperrins. A partir daí, O’Kane e o marido, Cormac McAleer, passaram a pesquisar os efeitos da mineração de ouro e se engajaram na mobilização de moradores.
O casal afirma que a oposição ao projeto passou a dominar a rotina da família. O receio, segundo os críticos, é que a extração cause danos a uma área de grande beleza natural, poluição em cursos d’água e riscos à saúde da população local. A resistência também se apoia no valor simbólico do território para famílias que vivem ali há gerações.
A mobilização local assumiu várias formas ao longo dos anos. Grupos como o Save our Sperrins organizaram reuniões públicas em vilarejos e pequenas cidades, além de ações para documentar a biodiversidade da área. Moradores instalaram câmeras em rios e córregos para registrar espécies como lontras, martas e mexilhões-de-água-doce, descritos pela reportagem como uma população de importância internacional.
O que a Dalradian Gold argumenta em defesa da mina?
A Dalradian sustenta que o projeto pode ser limpo, neutro em carbono e economicamente transformador para a região. A empresa afirma que a mina pode apoiar uma cadeia de suprimentos de £1 bilhão. Há também moradores favoráveis ao empreendimento, como o mecânico Gerry Kelly, de 56 anos, que vive a cerca de uma milha do local proposto e disse ao jornal que muitos buscariam um emprego bem remunerado perto de casa, caso a oportunidade existisse.
O peso econômico do projeto ajuda a explicar a persistência da proposta. Segundo a reportagem, a empresa já gastou mais de £250 milhões no empreendimento sem garantia de aprovação final. O interesse é reforçado pelo teor do minério em Curraghinalt: enquanto em outras minas do mundo pode ser viável extrair minério com 0,5 grama de ouro por tonelada, trechos da jazida na região teriam entre 200 e 300 gramas por tonelada.
O pedido de licenciamento em análise prevê a extração anual de ouro avaliado em quase £500 milhões aos preços atuais, informa o Guardian. Além do ouro, a área também abriga reservas de prata, cobre e minerais críticos como antimônio e telúrio.
Como a disputa afetou a vida da comunidade ao longo da última década?
O conflito ultrapassou o debate técnico e se tornou uma divisão social profunda em pequenas comunidades rurais onde todos se conhecem. De acordo com a reportagem, antigos amigos deixaram de se falar em espaços cotidianos, como a capela local e o posto de combustíveis. Pessoas favoráveis e contrárias ao projeto relataram medo de manifestar abertamente suas opiniões.
Ambos os lados também descrevem episódios de intimidação e até ameaças de morte, segundo o jornal, em uma região onde esse tipo de situação carrega um peso histórico específico. O atraso de nove anos até a retomada da investigação pública é atribuído a fatores como a campanha persistente de oposição, a proximidade da fronteira irlandesa e o sistema de planejamento da Irlanda do Norte, descrito por apoiadores da mina como burocrático e disfuncional.
- Retomada da investigação pública: segunda-feira, 13 de abril
- Pedido original de planejamento: apresentado há nove anos
- Extração proposta: 3,5 milhões de onças de ouro
- Duração estimada da operação: 20 a 25 anos
- Investimento já realizado pela empresa: mais de £250 milhões
Para ativistas como Marella Fyffe, que deixou o trabalho como professora de ioga no ano passado para se dedicar integralmente à campanha, a disputa local reflete um embate mais amplo entre modelos de desenvolvimento e valores sociais. Já para defensores da mina, a iniciativa representa uma oportunidade rara de emprego e investimento. A retomada da investigação pública é vista pelos dois lados como um passo decisivo, ainda que cada um espere um desfecho oposto.