O mercado de transporte marítimo de granéis secos, conhecido como dry bulk, começou 2026 com desempenho acima do esperado e pode manter viés positivo ao longo do ano, com destaque para o segmento capesize. A avaliação foi apresentada por Will Fray, diretor da Maritime Strategies International (MSI), em análise publicada em 23 de março de 2026. De acordo com informações da Splash247, a combinação entre demanda firme por minério de ferro e bauxita, crescimento moderado da frota e ineficiências operacionais ajudou a sustentar os fretes no primeiro trimestre.
Segundo a análise, os recentes acontecimentos no Oriente Médio afetaram o transporte marítimo global, mas o dry bulk ficou relativamente mais protegido do que outros segmentos. A perda direta de demanda teria sido, em linhas gerais, compensada pela redução de oferta causada por navios retidos a oeste do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o comércio global de petróleo e derivados. Ainda assim, efeitos indiretos sobre mercados de fertilizantes, grãos e carvão podem influenciar o setor.
O que sustentou a alta do dry bulk no início de 2026?
Antes mesmo do início da chamada Operation Epic Fury, no fim de fevereiro de 2026, os ganhos do setor já eram considerados robustos. O índice BDI teve média de 1.906 pontos em janeiro e fevereiro, acima dos 911 pontos registrados no mesmo período de 2025. O texto aponta que esse início de ano lembra a força fora do padrão sazonal observada no começo de 2024.
O avanço recente dos fretes foi liderado pelo melhor desempenho do segmento capesize, classe de navios usada principalmente no transporte de grandes volumes de minério de ferro e carvão. A demanda chinesa por importações ajudou a elevar os estoques portuários de minério de ferro para mais de 150 milhões de toneladas, um novo recorde citado pela análise. No Brasil, os embarques de minério também foram descritos como fortes, favorecidos por condições mais secas associadas ao fenômeno La Niña, o que apoiou a mineração e a logística.
Na Austrália, os embarques de minério de ferro seguiram em ritmo robusto, apoiados por movimentação portuária recorde em Pilbara, principal região exportadora de minério de ferro do país. As exportações cresceram 13,2% na comparação anual nos dois primeiros meses do ano. Já as exportações de bauxita da Guiné entraram em seu pico sazonal, com alta de 25% no mesmo intervalo.
Como a oferta de navios influenciou esse movimento?
O texto afirma que não foi apenas a demanda mais forte que deu sustentação ao mercado. O baixo crescimento da frota teve peso importante, especialmente entre os capesize. Em 2025, foram entregues 7,2 milhões de toneladas de porte bruto desse tipo de embarcação, o equivalente a 1,9% da frota, enquanto 1,1 milhão de toneladas de porte bruto foram enviadas para desmonte.
Além disso, a eficiência operacional caiu por causa de viagens médias mais longas, mais dias nos portos e velocidades menores. Outro fator relevante foi a retirada temporária de navios para inspeções especiais, o que reduziu a oferta efetiva e teve impacto importante na força do mercado capesize no primeiro trimestre.
A MSI projeta que o segundo trimestre de 2026 deve registrar aumento da capacidade efetiva da frota capesize, à medida que embarcações retiradas para essas inspeções voltem a operar. Ao mesmo tempo, o crescimento da oferta em sub-capesize é descrito como mais expansionista, com cronograma de entregas que inclui mais de 200 navios panamax esperados para 2026.
Qual é a expectativa para fretes e contratos futuros?
No cenário-base mais recente da MSI, a diferença entre os ganhos de capesize e panamax tende a aumentar em 2026, principalmente por uma perspectiva mais forte para os fretes de capesize. A consultoria também afirma estar mais positiva para os ganhos de afretamento em todos os principais referenciais de granéis secos em comparação com sua atualização anterior.
O texto destaca ainda a mudança de percepção do mercado futuro. O contrato capesize para o segundo trimestre de 2026 estava cotado a US$ 19.500 por dia em julho de 2025 e subiu para US$ 32.500 por dia no fim de fevereiro de 2026, alta de 67% em oito meses. Depois do pico de fevereiro, a curva futura perdeu um pouco de força, mas permaneceu perto de US$ 30.000 por dia para o restante do ano.
- Comércio de dry bulk projetado para crescer cerca de 1,9% em 2026
- Demanda em toneladas de porte bruto prevista para avançar pouco menos de 3%
- Desmonte estimado em 4,5 milhões de toneladas de porte bruto
- Entregas previstas em 42 milhões de toneladas de porte bruto
- Crescimento líquido da frota estimado em 37,6 milhões de toneladas de porte bruto
O cenário é positivo para todo o setor?
A análise indica que o quadro geral é favorável, mas não excessivamente otimista. Com entregas de 42 milhões de toneladas de porte bruto em 2026 e desmonte contido em 4,5 milhões, o crescimento líquido da frota seria o maior em 14 anos, equivalente a 3,6% na comparação anual. Ajustado para embarcações indisponíveis, isso representa crescimento de oferta de 3,1%.
Como a expansão da oferta ficaria ligeiramente acima da expansão da demanda, a taxa de utilização da frota de granéis secos poderia recuar marginalmente de 88,1% em 2025 para 87,9% em 2026. Por isso, embora o mercado tenha mostrado sinais positivos no início do ano, a leitura final da MSI é de resultados diferentes conforme o porte do navio, com tendência de desempenho mais forte entre os capesize do que nos demais segmentos.