O anúncio de Israel de que o Irã teria mísseis capazes de atingir alvos a até 4.000 quilômetros reacendeu o alerta na Europa após um ataque contra a base militar de Diego Garcia, no Oceano Índico. Segundo o relato, divulgado após o episódio ocorrido na sexta-feira, 20 de março de 2026, e repercutido no sábado, 21 de março de 2026, a suspeita surgiu porque a ilha fica a cerca de 3.800 quilômetros do território iraniano. A discussão envolve a possibilidade teórica de cidades europeias entrarem no alcance desse tipo de armamento, embora autoridades e analistas ressaltem que ainda não há confirmação definitiva sobre essa capacidade nem sinais de um plano iraniano para atacar o continente. Para o Brasil, o tema tem relevância diplomática e econômica: o país mantém relações com nações do Oriente Médio e acompanha os efeitos de crises na região sobre energia, comércio internacional e rotas marítimas.
De acordo com informações do g1 Mundo, Diego Garcia é uma ilha controlada pelo Reino Unido que abriga uma base militar compartilhada com os Estados Unidos. O território britânico no Oceano Índico é estratégico para operações militares na Ásia e no Oriente Médio. O governo britânico autorizou o uso do local por forças norte-americanas para atacar lançadores de mísseis iranianos que miram navios no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo. Segundo o jornal The Wall Street Journal, o Irã lançou dois mísseis contra a base na manhã de sexta-feira, 20 de março de 2026: um falhou no trajeto, e o outro foi interceptado por um navio de guerra dos Estados Unidos.
O ataque a Diego Garcia comprova que o Irã pode atingir a Europa?
Não de forma conclusiva. A agência semiestatal Mehr afirmou que o ataque demonstraria um alcance maior dos mísseis iranianos, enquanto o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse que o Reino Unido colocava vidas britânicas em risco ao permitir o uso de bases para ataques. Até então, porém, o alcance publicamente conhecido dos mísseis iranianos era de pelo menos 2.000 quilômetros, limite que o próprio Araghchi havia mencionado poucos dias antes do início da guerra.
Na avaliação do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, o CSIS, mísseis iranianos com alcance de 2.000 quilômetros já poderiam atingir partes da Europa, como Bulgária, Romênia, Ucrânia e Grécia. Um armamento com alcance de 4.000 quilômetros ampliaria esse cenário e colocaria dentro do raio cidades como Berlim, Londres, Roma e Paris, além de grande parte das demais capitais europeias.
Especialistas veem risco imediato de ataque iraniano ao continente?
O professor Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, afirmou que possuir esse tipo de armamento não significa necessariamente que um ataque à Europa esteja nos planos de Teerã. Segundo ele, não há indícios, neste momento, de que o Irã pretenda atacar território europeu no contexto da guerra contra Israel e Estados Unidos.
“O simples fato de o Irã ter essa possibilidade, por mais remota que seja, já tem consequências profundas. Isso faz a Europa olhar com ainda mais cautela para a guerra no Oriente Médio”, diz.
A avaliação apresentada na reportagem é que a mera possibilidade de um míssil com maior alcance já altera o ambiente estratégico no continente. Ainda assim, isso não equivale a uma confirmação operacional ampla nem indica, por si só, uma ofensiva iminente contra países europeus.
O Irã já tinha sinais de avanço em seus programas de mísseis?
Segundo a reportagem, em 2015 o Irã revelou o míssil Soumar, que poderia atingir alvos a até 3.000 quilômetros de distância. O CSIS, no entanto, aponta dúvidas sobre esse número e avalia que o alcance real provavelmente ficaria abaixo de 2.500 quilômetros. O país também mantém mísseis balísticos de curto e médio alcance, com modelos que variam entre 300 e 2.000 quilômetros.
Entre os sistemas citados estão o Sejjil e o Shahab-3, ambos com alcance acima de 1.000 quilômetros e capacidade de atingir Israel e outros países do Oriente Médio. Nos últimos anos, analistas passaram a considerar a hipótese de que o Irã estivesse desenvolvendo tecnologias para chegar a distâncias ainda maiores, até 5.000 quilômetros, mas a reportagem ressalta que não houve confirmação oficial nesse sentido.
- Soumar: alcance anunciado de até 3.000 km, sob contestação do CSIS
- Sejjil e Shahab-3: alcance acima de 1.000 km
- Arsenal conhecido publicamente: de 300 km a 2.000 km em diferentes modelos
O que autoridades internacionais disseram após o episódio?
A reportagem informa que Benjamin Netanyahu disse a Donald Trump, em visita à Casa Branca no início de fevereiro, que o Irã havia avançado em programas balísticos. A informação foi atribuída à agência Reuters, com base em fontes com conhecimento da reunião. No encontro, Netanyahu afirmou que havia a possibilidade de o Irã, no futuro, conseguir atingir o território dos Estados Unidos.
Três semanas depois, antes do ataque ao Irã, Trump declarou em discurso no Congresso que o país tinha mísseis capazes de ameaçar a Europa e trabalhava para alcançar os Estados Unidos. Já o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, disse no domingo, 22 de março de 2026, que ainda não havia confirmação de que o Irã tivesse um míssil apto a atingir alvos a 4.000 quilômetros, embora a possibilidade exista.
“O que sabemos com certeza é que eles estão muito perto de ter essa capacidade. No caso da base britânica em Diego Garcia, ainda estamos avaliando. Mas, se for verdade, significa que eles já têm essa capacidade”, afirmou em entrevista à CBS News.
O próprio governo iraniano deu sinais contraditórios. Depois das declarações de Araghchi e da reportagem da Mehr, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baqaei, afirmou na segunda-feira, 23 de março de 2026, que Mark Rutte havia se recusado a apoiar a “desinformação” de Israel sobre os mísseis iranianos.
