A inteligência artificial tem sido usada por comunidades indígenas para detectar desmatamento ilegal, monitorar incêndios florestais e acompanhar seus territórios tradicionais, mas especialistas alertam que a infraestrutura que sustenta essa tecnologia também cria novas ameaças. O debate foi exposto no Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, em meio a alertas de que centros de dados e a demanda por energia, água e minerais críticos podem afetar diretamente territórios indígenas. De acordo com informações da Grist, líderes e pesquisadores discutem como usar a IA em favor da proteção territorial sem reforçar dinâmicas extrativistas combatidas há gerações.
Um estudo publicado por Hindou Oumarou Ibrahim, do povo Mbororo e ex-presidente do fórum, destacou tanto as possibilidades quanto os desafios da IA para a proteção ambiental. Entre os impactos apontados sobre territórios indígenas estão a apropriação de terras, a sobre-exploração da água e a degradação ambiental associadas ao alto consumo de energia, água e minerais críticos exigidos pela tecnologia.
Como a inteligência artificial pode apoiar a proteção de terras indígenas?
Segundo Ibrahim, a IA pode ajudar comunidades indígenas a monitorar a biodiversidade e identificar desmatamento, mineração ilegal, incêndios florestais e contaminação da água com o apoio de imagens de satélite e sensores. Ela afirmou ao Mongabay:
“For generations, Indigenous Peoples have protected the world’s most intact ecosystems without satellites, without algorithms or technologies. AI can become a powerful ally to that stewardship, if it is used on our terms in a culturally appropriate way.”
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Em outra declaração citada pela reportagem, Ibrahim disse que, quando combinada ao conhecimento indígena, a IA pode contribuir para prever impactos climáticos, acompanhar o deslocamento da fauna e reforçar o planejamento do uso da terra, além de apoiar estratégias mais rápidas de resiliência.
No Brasil, a reportagem cita a Reserva Indígena Katukina/Kaxinawá, no Acre, onde agentes indígenas agroflorestais vêm usando IA no combate ao desmatamento. A área está entre as cinco com maior risco de desmatamento, segundo uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pela Microsoft e pela organização brasileira Imazon.
Siã Shanenawa, um dos 21 agentes agroflorestais da reserva, afirmou que o monitoramento é importante para identificar invasões, retirada de madeira, caça e focos de incêndio próximos ao território. A experiência brasileira aparece como um exemplo de uso prático da tecnologia para fortalecer a vigilância territorial.
Quais exemplos internacionais mostram esse uso da tecnologia?
A reportagem também menciona outras iniciativas em diferentes regiões. Lars Ailo Bongo, professor da UiT The Arctic University, na Noruega, lidera o Sámi AI Lab, que investiga como a IA pode apoiar o povo indígena Sámi. Em mensagem por e-mail, ele afirmou que a tecnologia ainda não é inclusiva o suficiente, mas pode ampliar o acesso a capacidades analíticas voltadas a modelos orientados por visões e normas sámi.
Em Nunavut, comunidades inuit combinam conhecimento tradicional com modelos preditivos de IA e análises temporais para localizar novas áreas de pesca, diante dos efeitos das mudanças climáticas sobre a disponibilidade de peixes. No Chade, pastores indígenas usam mapeamento participativo, dados de satélite e ferramentas preditivas para antecipar secas severas e proteger corredores de transumância.
Na América do Sul, a Rainforest Foundation US também utiliza uma combinação de conhecimento tradicional com tecnologias em evolução, incluindo o plantio de árvores em limites territoriais, smartphones e drones, para apoiar comunidades indígenas na proteção de seus territórios. O diretor de ciência de campo da entidade, Cameron Ellis, resumiu esse processo da seguinte forma:
“AI is the latest tool in that continuum.”
Ellis acrescentou que monitores comunitários podem usar produtos de sensoriamento remoto derivados de IA para processar grandes volumes de dados de satélite, interpretar padrões de desmatamento ligados à mineração ou à expansão agropecuária e responder mais rapidamente a essas ameaças.
Quais riscos ambientais e políticos cercam o avanço da IA?
Ao mesmo tempo em que pode ser útil para a proteção territorial, a IA depende de uma infraestrutura física com impactos concretos. A reportagem relata preocupações de moradores e agricultores em Chonburi e na vizinha província de Rayong, na Tailândia, sobre os efeitos ambientais da expansão de centros de dados, que exigem grandes volumes de água para resfriamento e elevado consumo de energia para operação.
Cenário semelhante, segundo o texto, ocorre em outras comunidades no mundo, incluindo áreas rurais no leste da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e povoados no estado de Querétaro, no México. Entre os temores relatados estão contaminação por águas residuais, escassez de água e energia e aumento de custos relacionados à expansão dessas estruturas.
“AI is often perceived as immaterial, but it carries a very real environmental footprint.”
A frase é de Ibrahim, que também afirmou que a IA depende de grandes quantidades de energia, água e minerais críticos, muitos deles extraídos em territórios indígenas ou próximos a eles, o que pode provocar degradação da terra, perda de biodiversidade e, em alguns casos, deslocamento de comunidades.
- Alto consumo de água para resfriamento de centros de dados
- Demanda intensa por energia
- Extração de minerais críticos em áreas sensíveis
- Risco de apropriação de terras e degradação ambiental
- Possível exposição de áreas sagradas e dados sensíveis
O que líderes indígenas defendem para limitar esses impactos?
O estudo de Ibrahim também apontou dificuldades como falta de infraestrutura, proteção legal insuficiente e baixa capacidade institucional para resguardar direitos digitais. Segundo a autora, a IA pode levar à exclusão de povos indígenas ou facilitar a extração de dados sensíveis. O uso de drones, satélites ou ferramentas de mapeamento sem consulta prévia, por exemplo, pode expor a localização de sítios sagrados e áreas ecologicamente estratégicas.
Kate Finn, cidadã da Nação Osage e diretora-executiva do Tallgrass Institute, disse ver um espaço de oportunidade na IA para preservar línguas indígenas e fortalecer sistemas de governança. Ao mesmo tempo, afirmou que a demanda recorrente dos povos indígenas é pelo respeito ao consentimento livre, prévio e informado antes da instalação de centros de dados em seus territórios.
Bongo também afirmou que os sámi enfrentam limitações de financiamento para contratar desenvolvedores capazes de criar modelos de IA alinhados à sua realidade e disponibilizá-los às comunidades. Para ele, o problema não é de competência, mas de capacidade financeira, o que exigiria apoio estatal de países como Noruega, Finlândia e Suécia.
Na avaliação dos entrevistados, a tecnologia não substitui a governança comunitária. O ponto central é que ferramentas de IA só produzem resultados efetivos quando estão subordinadas à liderança das próprias comunidades e quando os dados gerados permanecem sob controle indígena, sem comprometer direitos territoriais, culturais e informacionais.