A inteligência artificial tornou-se a principal aliada de meteorologistas e cientistas de dados no Japão para prever o momento exato do desabrochar das sakuras (cerejeiras) durante a primavera do Hemisfério Norte de 2026. O fenômeno atrai anualmente milhões de turistas e moradores aos parques de cidades como Tóquio, exigindo cálculos extremamente precisos para guiar o planejamento de companhias aéreas, hotéis e da população local. O evento também desperta interesse no Brasil, país que abriga a maior comunidade nipônica fora do arquipélago asiático e mantém forte conexão cultural com a tradição.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, a precisão nas datas de floração é crucial para o Japão, uma vez que a temporada gera uma receita turística e comercial estimada em mais de R$ 46 bilhões. A pressão recai sobre especialistas como Hiroki Ito, cientista da Corporação Meteorológica do Japão, sediada em Osaka.
“É muita pressão; sinto o peso da história. Na verdade, tenho um pouco de medo da primavera. Não consigo aproveitá-la plenamente”, declarou Ito, referindo-se à responsabilidade que carrega há mais de uma década na formulação das projeções botânicas.
Como a tecnologia altera a medição das flores?
Com o auxílio da inteligência artificial, os pesquisadores agora conseguem analisar o histórico de temperaturas de décadas e processar milhares de imagens enviadas pelo público. Esses arquivos fotográficos alimentam vastos bancos de dados, permitindo rastrear o desenvolvimento dos botões florais que surgem no verão, repousam no inverno e desabrocham na primavera asiática.
Shunsuke Arioka, meteorologista da empresa Weathernews, processa registros enviados por usuários por meio de um aplicativo com mais de 50 milhões de fotos. Apenas em um fim de semana, a plataforma recebeu cerca de oito mil imagens, que foram imediatamente organizadas pela máquina em sete diferentes estágios de desenvolvimento botânico.
O método tradicional dependia exclusivamente de modelos básicos de computação e da observação visual. O risco de erro era considerável, como ocorreu no ano de 2007, quando falhas matemáticas obrigaram a Agência Meteorológica Oficial do Japão a emitir um pedido público de desculpas em rede nacional de televisão, após um desvio de até nove dias na previsão para algumas localidades.
Quais fatores dificultam as previsões climáticas atualmente?
O aquecimento global e as sucessivas alterações climáticas nas últimas décadas anteciparam o ciclo das árvores em vários dias, tornando o cálculo matemático substancialmente mais complexo. O clima atipicamente quente em todo o território asiático exige adaptações constantes nos algoritmos de projeção ambiental do país.
Nesta temporada de 2026, o ciclo de desabrochar espalha-se gradualmente pelas ilhas japonesas ao longo de dois meses, obedecendo a uma ordem geográfica específica:
- Início em meados de março, nas áreas subtropicais de Shikoku, ao sul;
- Avanço pela ilha vulcânica de Kyushu e pelos Alpes japoneses até a região central de Honshu;
- A capital Tóquio registra o pico botânico geralmente na reta final do mês de março;
- Término no começo de maio, na região de Hokkaido, localizada no extremo norte.
Por que o hanami é tão importante na cultura japonesa?
A prática contemplativa, conhecida historicamente como hanami, mobiliza os 123 milhões de habitantes do país. Prefeituras organizam grandes festivais e o comércio gastronômico cria cardápios temáticos elaborados com flores conservadas. O hábito de admirar a paisagem originou-se no século nove, impulsionado pelo Imperador Saga, e a rápida queda das pétalas, que costumam durar apenas uma semana, simboliza a natureza efêmera da vida. No Brasil, festividades semelhantes ocorrem tradicionalmente durante os meses de inverno em locais como o Parque do Carmo (em São Paulo) e na cidade de Curitiba (PR), que abrigam cerejeiras adaptadas ao clima sul-americano.
Apesar dos avanços algorítmicos que permitiram divulgar as primeiras estimativas de pico de floração ainda em dezembro com margem de erro de até dois dias, o trabalho humano de verificação continua ativo. Meteorologistas inspecionam presencialmente o desenvolvimento da variedade ornamental Somei-yoshino em locais históricos, como o Santuário Yasukuni, garantindo o cruzamento de dados virtuais com a realidade orgânica.
