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Inflação de alimentos no Brasil tem causas estruturais, aponta estudo divulgado

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Colorful display of fresh fruits at a bustling market in Espírito Santo, Brazil.
Colorful display of fresh fruits at a bustling market in Espírito Santo, Brazil. Foto: Matheus Amaral — Pexels License (livre para uso)

A inflação dos alimentos no Brasil tem caráter estrutural e afeta com mais intensidade os produtos frescos do que os ultraprocessados, segundo estudo divulgado nesta terça-feira, 31 de março de 2026, pela ACT Promoção da Saúde em parceria com a Agência Bori. Elaborado pelo economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela Unicamp, o levantamento foi apresentado no Rio de Janeiro e sustenta que a alta dos preços da comida não se explica apenas por fatores sazonais ou conjunturais, mas por características permanentes da organização econômica do país. De acordo com informações da Agência Brasil, a pesquisa mostra que, em quase 20 anos, o custo da alimentação subiu muito acima da inflação oficial.

O estudo argumenta que oscilações temporárias, como a entressafra do tomate, e eventos conjunturais, como uma desvalorização súbita do câmbio, não bastam para explicar o encarecimento persistente dos alimentos no país. Na avaliação do autor, há pressões permanentes que exigem mudanças estruturais, e não apenas a expectativa de correção automática dos preços ao longo do tempo.

“A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários, é específica, porque está associada às características históricas do modelo de desenvolvimento brasileiro”

Quanto os alimentos subiram em relação à inflação oficial?

De junho de 2006 a dezembro de 2025, o custo da alimentação no Brasil subiu 302,6%, enquanto a inflação geral medida pelo IPCA, índice oficial calculado pelo IBGE, avançou 186,6%. Segundo o levantamento, isso significa que o encarecimento da comida superou em 62% a inflação oficial no período. Para comparação, nos Estados Unidos, os preços dos alimentos ficaram cerca de 1,5% acima da inflação geral no mesmo intervalo, de acordo com o pesquisador.

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Palmieri Junior afirmou ainda que, no Brasil, quando crises fazem os preços dos alimentos dispararem, há dificuldade de recuo posterior. Em conversa com jornalistas para apresentar o estudo, ele resumiu esse comportamento do mercado.

“Aumentar é fácil, mas depois, em algum momento, cair um pouco, isso é muito difícil. Vi isso em relação a alguns outros países”

Ao detalhar os grupos alimentícios, a pesquisa aponta as maiores altas acumuladas no período analisado:

  • tubérculos, raízes e legumes: 359,5%;
  • carnes: 483,5%;
  • frutas: 516,2%.

Por que alimentos saudáveis perderam mais poder de compra?

O levantamento mostra que a perda do poder de compra foi mais intensa nos alimentos in natura. Segundo o estudo, se uma pessoa destinasse 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com a mesma proporção, conseguiria adquirir mais ultraprocessados e menos alimentos saudáveis. Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%, e para hortaliças e verduras, 26,6%.

No sentido oposto, houve aumento no poder de compra para refrigerantes, com alta de 23,6%, e para embutidos como presunto, com 69%, e mortadela, com 87,2%. O pesquisador atribui parte desse comportamento ao fato de os ultraprocessados dependerem de ingredientes industriais e aditivos com menor oscilação de preços, além de cadeias produtivas baseadas em poucos insumos.

“Poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, passam a ser transformados em milhares de produtos distintos por meio da adição de aditivos químicos”

Na avaliação do economista, esse movimento altera o padrão de consumo ao direcionar escolhas para produtos menos saudáveis, já que o peso da inflação sobre os alimentos frescos é maior.

Como o modelo agroexportador influencia os preços internos?

Um dos fatores apontados pelo estudo é a inserção internacional do Brasil e o peso do modelo agroexportador. O argumento é que, por ser um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, o país estimula a destinação da produção ao mercado externo, onde os preços são recebidos em dólar, em vez de priorizar o abastecimento interno.

De acordo com o levantamento, o Brasil exportava 24,2 milhões de toneladas de alimento na década de 2000 e importava 14,2 milhões de toneladas. Em 2025, as exportações chegaram a 209,4 milhões de toneladas, enquanto as importações ficaram em 17,7 milhões. O estudo também destaca a expansão da área destinada a soja, milho e cana-de-açúcar, culturas centrais do agronegócio exportador brasileiro, que passou de 41,93 milhões de hectares em 2006 para 79,30 milhões em 2025. Já a área voltada a arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu de 10,22 milhões para 6,41 milhões de hectares no mesmo período.

“Esse indicador mostra a quantidade líquida de alimentos produzidos no país cujo destino é o mercado externo, reforçando o papel do Brasil como grande exportador e aumentando a influência do mercado internacional sobre os preços internos”

Quais outros fatores estruturais foram apontados pelo estudo?

O trabalho cita ainda o encarecimento dos insumos agrícolas e a concentração da cadeia produtiva. Na comparação entre os triênios 2006-2008 e 2022-2024, os aumentos reais identificados foram expressivos:

  • fertilizantes: 2.423%;
  • herbicidas e reguladores de crescimento: 1.870%;
  • colheitadeiras: 1.765%;
  • inseticidas: 1.301%;
  • ureia: 981%;
  • peças e partes de máquinas agrícolas: 667%.

Segundo o pesquisador, esse cenário reflete a dependência de insumos e tecnologias controlados por oligopólios de países desenvolvidos. O estudo também registra alta concentração em segmentos como sementes, pesticidas, máquinas agrícolas e indústria alimentícia.

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