No Acampamento Terra Livre de 2026, em Brasília, lideranças indígenas anunciaram 34 pré-candidaturas para as eleições deste ano e relataram obstáculos políticos, jurídicos e institucionais para ampliar a presença dos povos originários nos espaços de poder. A reportagem acompanha, ao longo da semana do ATL, compromissos de pré-candidatas como Alessandra Korap, Auricelia Arapiun e Vanda Witoto, enquanto o movimento busca fortalecer a chamada Bancada do Cocar e denunciar ameaças a territórios indígenas, rios e modos de vida.
De acordo com informações da Sumaúma, o ATL de 2026 chegou à 22ª edição e reuniu milhares de participantes na capital federal. A publicação relata que a estrutura política, judiciária e, em alguns momentos, policial de Brasília dificulta o acesso de indígenas a discussões centrais sobre o próprio futuro, justamente no momento em que mais lideranças tentam disputar cargos eletivos.
Quem são as lideranças indígenas acompanhadas na reportagem?
Um dos focos do texto é Alessandra Korap, liderança Munduruku do Médio Tapajós e pré-candidata a deputada federal pelo PT. Durante o acampamento, ela é descrita como uma das vozes mais requisitadas do encontro e concentra sua fala na defesa do rio Tapajós, afetado pelo mercúrio do garimpo ilegal e pressionado por projetos ligados ao agronegócio e à logística de exportação.
Ao tratar da Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar Sinop, em Mato Grosso, a Itaituba, no Pará, Alessandra afirma que o empreendimento ameaça o rio. Em fala reproduzida pela reportagem, ela diz:
“Para construir a Ferrogrão, eles precisam dragar o Tapajós. Ou seja, o perigo continua”
A liderança também menciona preocupação com o julgamento no Supremo Tribunal Federal durante a semana do ATL. Em outro trecho citado pela reportagem, ela afirma:
“O Supremo deveria respeitar nossos locais sagrados, nossos rios, a Floresta, o nosso saber, o nosso modo espiritual.”
Quais pautas mobilizam os povos do Tapajós no ATL?
A reportagem destaca a presença de cerca de 300 indígenas do Baixo Tapajós entre os aproximadamente 7 mil participantes estimados pela Apib no acampamento. Auricelia Arapiun, liderança da região e pré-candidata a deputada estadual do Pará pelo PSOL, resume a mobilização como parte de uma reação à pressão de atividades econômicas sobre a Amazônia.
Segundo o texto, os principais alvos de contestação mencionados pelas lideranças incluem:
- mineração legal e ilegal;
- expansão do agronegócio;
- projetos de infraestrutura, como a BR-319;
- monoculturas de soja com uso de agrotóxicos;
- avanço do desmatamento para formação de pasto;
- impactos de projetos como a Ferrogrão.
Em uma das falas reproduzidas, Auricelia afirma:
“Os maiores inimigos da Amazônia são a mineração e o agronegócio”
O texto também relata que povos do Tapajós, do Madeira e do Tocantins se reuniram no acampamento para articular ações conjuntas. Entre os compromissos previstos estavam marcha pela Esplanada dos Ministérios e participação em sessão solene na Câmara dos Deputados.
Como o ATL se conecta à disputa eleitoral de 2026?
O anúncio de 34 candidaturas foi divulgado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib, organizadora do Acampamento Terra Livre. O objetivo, segundo a reportagem, é eleger a maior Bancada do Cocar da história do país, ampliando a representação indígena em instâncias como a Câmara dos Deputados, assembleias legislativas e a Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Nesse contexto, o texto contrapõe a mobilização indígena ao perfil predominante do Congresso Nacional. Na sessão solene acompanhada pela reportagem, a mesa diretora do plenário apareceu majoritariamente ocupada por mulheres, entre elas Ceiça Pitaguary, Lucia Alberta Baré, Célia Xakriabá, Juliana Cardoso, Sonia Guajajara e Marina Silva. A cena é apresentada como contraste em relação à composição do Legislativo federal, historicamente dominada por homens brancos.
A sessão ocorreu em um plenário associado, nos últimos anos, a votações de temas criticados pelos movimentos indígenas, como o marco temporal e o chamado PL da Devastação. A presença das lideranças no espaço simboliza, segundo o relato, a tentativa de romper barreiras formais e informais para participar das decisões que afetam seus territórios.
Por que Brasília é retratada como um espaço de exclusão?
A reportagem descreve a capital federal como um ambiente de portas fechadas para os povos tradicionais, tanto pela burocracia quanto pela dinâmica institucional. Ao acompanhar reuniões, audiências e atos públicos durante o ATL, o texto mostra que a circulação das lideranças entre acampamento, Congresso e outros espaços de poder é marcada por pressões, agendas intensas e disputas por visibilidade.
Nesse cenário, o ATL é apresentado não apenas como mobilização anual, mas como plataforma de articulação política e eleitoral. A presença de pré-candidatas indígenas em Brasília, segundo a reportagem, expressa uma tentativa de transformar a defesa dos territórios em representação institucional direta, diante de projetos e decisões que, na avaliação das lideranças, ameaçam rios, florestas e direitos constitucionais.