O Brasil possui condições favoráveis para liderar o mercado global de energias limpas, mas a produção em larga escala do hidrogênio verde (H2V) só deve iniciar as operações comerciais entre os anos de 2029 e 2030. A consolidação do setor enfrenta desafios estruturais e depende de regulações mais rigorosas, altos investimentos em infraestrutura elétrica e a necessidade de estabilidade geopolítica para garantir a viabilidade das futuras usinas.
De acordo com informações do Valor Empresas, os projetos industriais que já contam com decisão final de investimento somam R$ 53 bilhões até janeiro de 2026. Para o ciclo seguinte, compreendido entre 2027 e 2029, as estimativas projetadas pela Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (ABIHV) apontam para um acréscimo de R$ 55 bilhões em aportes financeiros estruturais no território nacional.
Quais são os principais obstáculos para a expansão do setor elétrico?
A euforia inicial do mercado produtivo resultou na assinatura de diversos memorandos em complexos portuários nacionais durante os últimos três anos. Contudo, uma parcela mínima dessas intenções alcançou a fase de execução financeira. A diretora executiva da ABIHV, Fernanda Delgado, ressalta que o avanço das obras físicas esbarrou na espera prolongada por um marco legal sólido, atuação direta de agências reguladoras, garantia de investidores e adequação da rede de transmissão elétrica do país.
A viabilidade dos projetos depende de etapas que precisam ser cumpridas
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, afirma a executiva sobre o descompasso entre os anúncios corporativos e o início das construções. Atualmente, o mercado global consome 100 milhões de toneladas anuais do gás, mas apenas um por cento provém de processos de baixo carbono. O volume fabricado no Brasil chega a 550 mil toneladas ao ano, das quais apenas 0,3% recebe a classificação de energia sustentável.
Como o cenário internacional afeta os investimentos no Brasil?
O panorama geopolítico recente, fortemente agravado pelas tensões e pelo conflito no Oriente Médio envolvendo o Irã, alterou a percepção de urgência dos financiadores globais. O chefe do Laboratório de Hidrogênio da Coppe/UFRJ e presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2), Paulo Emílio de Miranda, alerta que a proporção de iniciativas mundiais anunciadas que efetivamente iniciam a construção real é de apenas dois por cento do total planejado.
Muitos projetos ainda precisam avançar nos estudos de viabilidade técnica e econômica. Então, o patamar de produção que pode ser alcançado pelo Brasil até 2030 ainda é incerto
, destaca Miranda. Diante dos elevados custos de capital para erguer infraestruturas renováveis e a escassez de contratos de compras mínimas, consultores econômicos apontam que o capital financeiro de curto prazo deve migrar para biocombustíveis imediatos, como etanol, biodiesel e combustíveis sustentáveis de aviação, deixando o hidrogênio como uma solução de longo prazo.
Quais projetos industriais já estão em operação no território nacional?
Apesar dos obstáculos enfrentados para erguer megausinas de exportação, os complexos de pequeno e médio portes registram avanços operacionais significativos no país. A White Martins estabeleceu pioneirismo na América do Sul ao iniciar as operações em escala industrial no complexo de Suape, no estado de Pernambuco, durante o ano de 2022. Uma segunda unidade fabril entrou em atividade no ano passado no município de Jacareí, no estado de São Paulo. Juntas, as duas plantas industriais totalizam uma capacidade produtiva de mil toneladas anuais geradas por meio de eletrólise da água com energia solar.
Nosso objetivo primordial é viabilizar a descarbonização de setores industriais críticos. Em Jacareí, 80% da produção será destinada ao mercado, para atender indústrias de siderurgia, metal mecânico, alimentos e químico
, explica o executivo-chefe da companhia, Gilney Bastos. O gestor projeta que o produto brasileiro poderá fornecer o insumo limpo para nações internacionais que possuem metas climáticas restritas, mas carecem de matriz elétrica privilegiada.
Na frente de mobilidade urbana, a Neoenergia inaugurou uma instalação em Taguatinga, no Distrito Federal, focada na eletrólise via captação fotovoltaica. A estrutura tecnológica garante o abastecimento do primeiro ônibus público nacional movido a H2V e apoia testes de veículos híbridos em parceria com montadoras. O projeto recebeu R$ 30 milhões em investimentos provenientes de programas de inovação vinculados à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Quais outros setores econômicos buscam o combustível sustentável?
A transição energética também alcança o setor da mineração por meio de planos corporativos que visam zerar as emissões líquidas de poluentes. A mineradora Brazil Iron estruturou um planejamento com orçamento de US$ 5,7 bilhões para desenvolver minério de ferro verde no estado da Bahia, integrando a matriz limpa diretamente em sua cadeia de extração primária.
Para organizar este novo mercado emergente e facilitar as vendas internacionais do produto, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) lançou certificações oficiais que atestam rigorosamente a origem ambiental das plantas produtoras. O sistema de controle estabelece duas categorias principais:
- Selo totalmente renovável: exclusivo para a produção originada cem por cento de matrizes eólicas, solares ou usinas hidrelétricas.
- Selo parcialmente renovável: aplicável para quando a extração energética envolve transições utilizando outras matérias-primas fósseis de menor impacto, como o gás natural.