Um novo debate científico sobre a possível interrupção da Circulação Meridional do Atlântico, conhecida pela sigla Amoc, reacendeu alertas sobre riscos climáticos de grande escala, segundo artigo publicado por George Monbiot nesta quinta-feira, 23 de abril de 2026, no Reino Unido. De acordo com informações do Guardian Environment, cientistas passaram a considerar mais provável do que antes o colapso desse sistema oceânico, cuja alteração poderia afetar temperaturas na Europa, o regime de chuvas na Amazônia e o nível do mar na costa leste dos Estados Unidos.
No texto de opinião, Monbiot afirma que a repercussão pública do tema ficou abaixo da gravidade apontada por pesquisas recentes. O articulista relaciona essa baixa visibilidade à influência política e econômica de bilionários e de setores que, segundo ele, minimizam a dimensão da crise climática. O artigo também critica modelos econômicos usados em decisões públicas por tratarem impactos climáticos extremos de forma insuficiente.
O que é a Amoc e por que esse sistema preocupa cientistas?
A Amoc é descrita no artigo como um sistema crucial de circulação oceânica no Atlântico, responsável por transportar calor dos trópicos para o Atlântico Norte. Segundo Monbiot, pesquisas recentes indicam que mudanças na temperatura e na salinidade da água do mar, associadas à crise climática, aumentaram a preocupação com uma possível paralisação desse mecanismo.
De acordo com o texto, o desligamento da Amoc poderia provocar uma forte queda nas temperaturas médias de inverno no norte da Europa e mudanças severas nos ciclos de água da Amazônia. O artigo sustenta que isso poderia empurrar a floresta para um processo de colapso em cascata, além de desencadear outros efeitos climáticos relevantes em diferentes regiões do planeta.
Quais impactos são citados no artigo sobre um eventual colapso?
Entre os efeitos mencionados por Monbiot estão a aceleração da elevação do nível do mar na costa leste dos Estados Unidos, ameaçando cidades, e o aumento da temperatura na Antártida em cerca de 6°C. O texto também afirma que esse processo poderia liberar grandes volumes de carbono hoje armazenados no Oceano Austral, agravando ainda mais o aquecimento global.
O articulista menciona ainda um estudo segundo o qual, mesmo considerando os efeitos gerais do aquecimento do planeta, o saldo líquido para o norte da Europa incluiria períodos de frio extremo. Entre os exemplos citados no artigo estão temperaturas de até -19°C em Londres, -30°C em Edimburgo e -48°C em Oslo. Segundo o texto, o gelo marinho em fevereiro poderia alcançar áreas tão ao sul quanto Lincolnshire.
- queda acentuada das temperaturas de inverno no norte da Europa
- mudanças no ciclo hídrico da Amazônia
- elevação mais rápida do nível do mar na costa leste dos EUA
- aquecimento adicional na Antártida
- liberação de carbono armazenado no Oceano Austral
O que mudou na avaliação de risco feita por pesquisadores?
O artigo lembra que a possibilidade de a Amoc ter um estado ativo e outro desligado foi proposta em 1961 e, desde então, vários estudos exploraram causas e consequências desse fenômeno. Até recentemente, diz Monbiot, o colapso provocado por ação humana era tratado como um evento de alto impacto, porém de baixa probabilidade.
Segundo o texto, pesquisas dos últimos anos levaram a uma reavaliação desse entendimento. Monbiot cita a reação do professor Stefan Rahmstorf, apresentado como uma das principais autoridades no tema, para quem as chances de interrupção da Amoc parecem ser de “mais de 50%”. O artigo acrescenta que, segundo Rahmstorf, o ponto de inflexão poderia ser alcançado “em meados deste século”.
“more than 50%”
“in the middle of this century”
Por que o autor critica modelos econômicos e a atuação de bilionários?
Monbiot argumenta que a resposta oficial à crise climática foi influenciada por modelos econômicos que, em sua avaliação, não refletem adequadamente os achados da ciência do clima. O artigo destaca o trabalho do economista William Nordhaus, cujo modelo, segundo o texto, apontaria como “socialmente ótimo” um nível de aquecimento entre 3,5°C e 4°C, patamar visto por muitos cientistas do clima como catastrófico.
O autor cita críticas feitas pelos economistas Nicholas Stern, Joseph Stiglitz e Charlotte Taylor. Segundo o artigo, eles argumentam que os efeitos moderados projetados por Nordhaus decorrem de premissas do modelo, como a ausência de riscos catastróficos e a suposição de que os impactos climáticos crescem de forma linear com a temperatura. Monbiot afirma que, na visão desses economistas, isso contrasta com projeções científicas que apontam efeitos não lineares e riscos crescentes.
O texto também menciona que modelos desse tipo teriam sido aproveitados por interesses ligados à indústria de combustíveis fósseis para defender respostas mínimas à crise climática. Monbiot cita ainda Bill Gates, afirmando que ele destinou US$ 3,5 milhões, equivalentes a £ 2,6 milhões no texto original, a um centro de estudos dirigido por Bjorn Lomborg, descrito pelo articulista como defensor da abordagem de Nordhaus.
Ao longo do artigo, Monbiot sustenta que a combinação entre poder econômico concentrado, influência política e baixa cobertura midiática contribui para reduzir a percepção pública sobre riscos existenciais ligados ao clima. Trata-se de um texto opinativo, mas baseado em pesquisas e declarações mencionadas pelo autor para defender que a ameaça de colapso da Amoc deveria ocupar posição central no debate público e nas respostas governamentais.