Dois relatórios divulgados nesta semana apontam que o mundo entrou em uma “era da eletricidade”, com avanço das fontes renováveis na geração elétrica em 2025, embora petróleo, gás e carvão ainda mantenham peso relevante no sistema energético global. O diagnóstico foi apresentado em meio à forte turbulência nos mercados de energia após a guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, que afetou o fornecimento global de petróleo e gás natural liquefeito. De acordo com informações da Grist, as análises foram publicadas pela Agência Internacional de Energia e pelo think tank Ember.
Segundo os relatórios, atividades econômicas que tradicionalmente dependiam da queima de combustíveis fósseis, como transporte, aquecimento de edifícios e parte de processos industriais, estão sendo cada vez mais eletrificadas. Ao mesmo tempo, uma parcela crescente dessa eletricidade passa a vir de fontes renováveis, o que altera o papel dos combustíveis fósseis no atendimento da demanda global por energia.
Por que 2025 foi um ano importante para as energias renováveis?
As duas análises indicam que 2025 foi um ano de forte expansão para as renováveis. A energia solar foi a principal fonte individual usada para atender ao crescimento do consumo mundial de eletricidade. Além disso, a nova geração vinda do conjunto de fontes sem carbono, como solar, eólica, nuclear e hidrelétrica, superou a alta total da demanda elétrica, o que significa que essas fontes começaram a deslocar combustíveis fósseis na geração.
O texto cita ainda uma declaração de Daan Walter, pesquisador da Ember, sobre esse movimento:
“Este foi um ano em que a economia cresceu, a demanda por eletricidade aumentou de forma saudável — e, ainda assim, todo esse crescimento da demanda foi atendido por fontes renováveis.”
Outro marco citado foi o fato de as renováveis terem superado o carvão na geração global de eletricidade pela primeira vez em mais de um século. Esse avanço foi impulsionado principalmente por China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, que juntos representam 42% da geração global de eletricidade a partir de combustíveis fósseis. Segundo o relatório, os dois países registraram queda da geração fóssil no mesmo ano pela primeira vez neste século.
O que explica essa mudança no uso de eletricidade?
De acordo com a Ember, a desaceleração do uso de combustíveis fósseis em 2025 não esteve ligada a uma recessão global, como ocorreu em outros momentos. A economia mundial teve crescimento considerado normal no período, o que sugere uma mudança estrutural na forma como a eletricidade vem sendo produzida.
Os relatórios também destacam o avanço da infraestrutura de energia solar, eólica e baterias em vários países. No caso das baterias, o custo caiu 45% em 2025, após uma redução de 20% registrada em 2024, segundo os analistas citados pela reportagem.
- Energia solar liderou a expansão da geração elétrica
- Fontes sem carbono superaram o crescimento da demanda por eletricidade
- Renováveis ultrapassaram o carvão na geração global
- China e Índia ampliaram rapidamente infraestrutura de solar, eólica e baterias
Por que os combustíveis fósseis ainda seguem relevantes?
Apesar do avanço da eletricidade renovável, o relatório da Agência Internacional de Energia afirma que essas fontes ainda não substituem os combustíveis fósseis com velocidade suficiente para provocar queda sustentada no uso global de energia emissora de gases de efeito estufa. Isso ocorre porque nem todo consumo energético depende de eletricidade. Setores como aviação, transporte marítimo de carga e parte da frota de veículos ainda não são movidos majoritariamente por eletrificação.
Como resultado, as emissões globais de dióxido de carbono atingiram um recorde no ano passado, com alta de 0,4% em relação a 2024. Ainda assim, a reportagem ressalta que o ritmo de crescimento das emissões vem diminuindo à medida que as renováveis ganham espaço.
Quais países puxaram altas e quedas recentes nas emissões?
O texto informa que, durante anos, a redução das emissões foi puxada por economias desenvolvidas, como Estados Unidos e países da União Europeia. No entanto, no ano passado, as emissões das economias avançadas cresceram mais rapidamente do que as das economias em desenvolvimento pela primeira vez desde a década de 1990, segundo a Agência Internacional de Energia.
Nos Estados Unidos, esse movimento foi influenciado pela alta de 10% na demanda por carvão. O aumento dos preços do gás natural levou geradores de energia a retomarem o uso do carvão. Além disso, o consumo de eletricidade subiu por causa de um inverno rigoroso em grande parte da região leste do país e pela entrada de grandes consumidores industriais de energia, como os centros de dados usados em aplicações de inteligência artificial.
Em sentido oposto, países em desenvolvimento também passaram a mostrar mudanças mais rápidas. Na Indonésia, por exemplo, os carros elétricos passaram a representar mais de 15% das vendas de veículos novos, percentual superior ao dos Estados Unidos, segundo a reportagem. O texto afirma ainda que muitos consumidores estão saltando diretamente dos modelos convencionais para veículos elétricos como primeiro automóvel.
“A transição energética foi concebida como algo liderado pelo mundo desenvolvido, e o mundo em desenvolvimento seguiria atrás em um ritmo mais lento. Agora estamos vendo esse ‘salto’ ao redor do mundo, em que economias em desenvolvimento estão avançando mais rápido em muitos aspectos do que economias desenvolvidas.”
O quadro traçado pelos relatórios mostra, portanto, uma transição energética em aceleração no setor elétrico, mas ainda insuficiente para eliminar a centralidade dos combustíveis fósseis no conjunto da economia global.