Um estudo publicado em 24 de abril de 2026 concluiu que 98% das promessas e declarações ambientais recentes feitas por algumas das maiores empresas de carne e laticínios do mundo podem ser classificadas como greenwashing. A pesquisa analisou informações públicas de 33 companhias do setor, com dados de 2021 a 2024, para verificar se os compromissos apresentavam medidas claras e viáveis de redução de impacto ambiental ou se se baseavam em promessas vagas e não verificáveis. De acordo com informações do EcoDebate, o estudo foi publicado na revista PLOS Climate e é assinado por pesquisadores da Universidade de Miami, nos Estados Unidos.
Segundo o texto, a indústria de carne e laticínios responde por 57% das emissões totais da produção global de alimentos e por pelo menos 16,5% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa. A partir desse peso climático, os autores examinaram como essas empresas comunicam suas metas ambientais e se as mensagens eram acompanhadas de evidências concretas.
O que o estudo analisou nas empresas de carne e laticínios?
Os pesquisadores avaliaram 1.233 alegações ambientais extraídas de relatórios de sustentabilidade e sites públicos de 33 das maiores empresas globais de carne e laticínios. O objetivo foi identificar se essas alegações detalhavam estratégias factíveis de redução de impacto ou se funcionavam apenas como comunicação institucional sem comprovação suficiente.
Do total de 1.233 alegações, 841, o equivalente a 68%, foram classificadas como relacionadas ao clima, por tratarem direta ou indiretamente de emissões de gases de efeito estufa ou dos efeitos das mudanças climáticas. O levantamento indica que o clima se tornou um dos principais enquadramentos usados por essas companhias para apresentar seus compromissos de sustentabilidade.
Quais foram os principais resultados encontrados pelos autores?
Entre as 1.233 alegações analisadas, 467, ou 38%, eram projeções futuras não verificáveis. O estudo cita como exemplos promessas como alcançar neutralidade de carbono até 2030 ou viabilizar a restauração de 600 bilhões de litros de água em regiões com escassez hídrica até 2030. Os autores informam ainda que foram encontradas evidências apresentadas pelas empresas para 356 alegações, o que corresponde a 29% do total.
Dentro desse conjunto, apenas três alegações tinham respaldo em evidências científicas acadêmicas, sendo duas delas relacionadas ao clima. O estudo também aponta que 17 das 33 empresas assumiram compromissos de emissões líquidas zero, número superior ao registrado em 2020, quando apenas quatro empresas faziam esse tipo de promessa.
Segundo os autores, esses compromissos de emissões líquidas zero parecem se apoiar em compensação de carbono, e não em descarbonização direta. Ao aplicar uma estrutura de classificação de greenwashing às alegações ambientais examinadas, a pesquisa concluiu que 1.213 das 1.233 alegações, ou 98%, poderiam ser enquadradas nessa categoria.
Por que os pesquisadores consideram essas promessas problemáticas?
Os autores observam que promessas vagas, alegações não verificáveis e práticas de greenwashing não são exclusivas da indústria de carne e laticínios. Ainda assim, afirmam que a pecuária tem impacto desproporcionalmente elevado sobre as emissões globais de gases de efeito estufa, o que amplia a relevância do problema quando esse setor faz compromissos ambientais sem base demonstrável.
“O greenwashing era desenfreado nos relatórios de sustentabilidade das maiores empresas de carne e laticínios do mundo, o que pode criar a ilusão de progresso climático”, disse Maya Bach, estudante de pós-graduação no Departamento de Ciência e Política Ambiental da Escola Rosenstiel da Universidade de Miami e principal autora do estudo.
A pesquisadora afirmou ainda que há preocupação com o potencial dessas mensagens de enganar o público, influenciar consumidores e reduzir a pressão sobre legisladores para a adoção de medidas climáticas.
“As empresas de carne e laticínios falam muito sobre mudanças climáticas, o que faz sentido, já que os alimentos de origem animal geram mais emissões e outros impactos ambientais do que outros tipos de alimentos”, disse Jennifer Jacquet, professora de Ciência e Política Ambiental e autora principal do estudo.
“Mas quando grande parte do que essas empresas dizem parece ser promessas vazias, sem respaldo em evidências ou investimentos, começa a parecer mais um exercício de relações públicas do que uma preocupação genuína com o planeta.”
Quais dados centrais ajudam a entender a conclusão do estudo?
- 33 empresas globais de carne e laticínios foram analisadas
- 1.233 alegações ambientais foram examinadas
- 841 alegações, ou 68%, eram relacionadas ao clima
- 467 alegações, ou 38%, eram projeções futuras não verificáveis
- 356 alegações, ou 29%, tinham algum tipo de evidência apresentada pelas empresas
- apenas três alegações tinham respaldo em evidências científicas acadêmicas
- 17 das 33 empresas assumiram compromissos de emissões líquidas zero
- 1.213 alegações, ou 98%, foram classificadas como greenwashing
A referência do estudo citada no texto é: Bach M, Loy L, Mach KJ, Shukla McDermid S, Jacquet J. Environmental claims, climate promises, and ‘greenwashing’ by meat and dairy companies, publicada na PLOS Climate, volume cinco, edição quatro, em 2026.