A febre do Oropouche pode ter infectado cerca de 5,5 milhões de pessoas no Brasil entre 1960 e 2025, o equivalente a aproximadamente 2% da população brasileira, segundo dados divulgados em 24 de março de 2026. O levantamento, produzido por um consórcio de pesquisadores, indica que a incidência real da doença é muito superior aos registros oficiais, com possibilidade de até 200 casos reais para cada episódio conhecido. De acordo com informações da Agência Brasil, o estudo também aponta a expansão da doença pelo país e o papel de Manaus na dispersão do vírus para outros centros urbanos.
Os dados foram reunidos por pesquisadores da University of Kentucky, da Universidade de São Paulo, da Universidade Estadual de Campinas e da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam). A febre do Oropouche é transmitida aos humanos pela picada de mosquitos do tipo Culicoides paraensis, conhecido na Região Norte como maruim ou mosquito-pólvora. Segundo o estudo, entre 1960 e 2025 a doença infectou 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe.
Por que os casos de Oropouche podem estar subnotificados?
O estudo atribui a diferença entre os casos confirmados e o número real de infecções a fatores como o acesso limitado a serviços de saúde na bacia amazônica e a provável alta proporção de quadros assintomáticos ou leves. Essa característica, segundo os pesquisadores, pode explicar por que muitos episódios não entram nas estatísticas oficiais.
Além disso, a infecção pode provocar um quadro febril semelhante ao da dengue e ao de outras arboviroses, o que dificulta a identificação correta da doença. Nesta década, foram registrados mais de 30 mil casos, em meio ao avanço de uma variante do vírus por toda a América Latina e o Caribe, cenário que, de acordo com a pesquisa, reforça a subnotificação nos serviços de saúde da região.
“A doença tem um ciclo silvestre muito bem esclarecido e, mais recentemente, a gente tem observado ciclos urbanos nas capitais, o que era pouco comum até pouco tempo”, explicou o diretor de Operações do Instituto Todos pela Saúde, Vanderson Sampaio.
Vanderson Sampaio acrescentou que, como grande parte da população ainda não teve contato com a doença, existe a possibilidade de avanço dos casos. Ele também afirmou que ainda não é possível saber a quantidade de ocorrências graves, em razão do baixo número de registros confirmados.
Como os pesquisadores chegaram a essas conclusões?
Para investigar a circulação do vírus, os pesquisadores analisaram dados sorológicos em amostras de sangue coletadas em três momentos distintos: novembro de 2023, junho de 2024 e novembro de 2024. A presença de antígenos foi usada como indicativo de contato prévio com a doença.
Com base nesses resultados, o grupo concluiu que o alcance do surto de 2023 a 2024 foi semelhante ao do surto anterior registrado no estado do Amazonas, em 1980-1981. Em ambos os episódios, o alcance em Manaus foi de cerca de 12,5%, chegando próximo de 15% no estado.
O estudo revisou ainda os registros históricos da doença e identificou 32 surtos desde 1955 no Brasil, Peru, Guiana Francesa e Panamá. Desse total, 19 ocorreram em território brasileiro.
“É possível sim a gente desenvolver técnicas de rastreio. Uma delas é a de vigilância de síndromes febris, analisando amostras dos pacientes a partir de análise genética”, destacou o especialista.
Qual é o papel de Manaus na disseminação da doença?
Segundo o estudo, Manaus é o principal centro da região amazônica na dispersão da febre do Oropouche. Capital do Amazonas, a cidade é um dos principais polos urbanos da Amazônia e concentra ligações com outros municípios e estados da região. Com população na casa de 2 milhões de pessoas e forte conexão com outras cidades, inclusive por via aérea, a capital amazonense funciona como polo de propagação do vírus.
De acordo com o levantamento, essa dinâmica foi determinante para a expansão da doença para outros centros, como Espírito Santo e Rio de Janeiro, estados bastante impactados em 2024.
Há tratamento ou medidas de controle suficientes?
Atualmente, não existem vacinas licenciadas nem antivirais específicos para a febre do Oropouche. O texto cita estudos realizados nesta década sobre a eficácia de acridonas na doença, entre eles o da pesquisadora Clarita Avilla, da Unesp de São José do Rio Preto.
Os pesquisadores observaram ainda que anticorpos adquiridos há décadas continuam capazes de neutralizar a cepa recente do vírus, o que sugere imunidade de longa duração. Apesar disso, o grupo alerta que, sem intervenções específicas, novos surtos devem continuar ocorrendo em áreas onde o vetor esteja presente.
Um segundo estudo publicado em 24 de março de 2026 pelo mesmo grupo indica que a predominância do vírus está em áreas rurais e florestais. Nesse trabalho, os autores afirmam que os casos de transmissão por mosquitos urbanos, como o Aedes aegypti, são minoria.
Com isso, os pesquisadores defendem que estratégias de controle vetorial voltadas apenas para mosquitos urbanos não bastam para conter a transmissão. Entre os pontos destacados estão:
- ampliação da vigilância epidemiológica em áreas de contato com mata degradada;
- rastreamento de síndromes febris com apoio de análise genética;
- identificação de populações já expostas ao vírus para prever novos surtos.
“Ao identificar quem já foi infectado, conseguimos prever com maior precisão quais populações permanecem em risco para futuros surtos”, afirma o professor Allyson Guimarães Costa, da Universidade Federal do Amazonas e do Hemoam.
