
A capacidade de energia renovável alcançou a marca histórica de quase 50% de toda a infraestrutura global de eletricidade ao longo de 2025, impulsionada por um aumento sem precedentes nas instalações de matrizes solares ao redor do planeta. Para efeito de comparação, o cenário no Brasil já se encontra em patamares bem mais avançados: o país possui uma matriz elétrica com mais de 80% de sua capacidade instalada operando com fontes limpas, impulsionada por hidrelétricas, energia eólica e solar. O avanço global ocorre no momento em que a indústria tenta se proteger dos recentes choques de mercado gerados pela volatilidade dos combustíveis fósseis e pelos conflitos geopolíticos.
De acordo com informações do UOL Notícias, os dados foram levantados pela Agência Internacional para as Energias Renováveis (Irena). O relatório revela que a infraestrutura verde somou um total de 5.149 gigawatts (GW) no fim do ano passado, representando uma adição de 692 GW em comparação aos números consolidados no ciclo anterior.
Como o crescimento da energia solar impactou os resultados globais?
O salto no setor foi majoritariamente liderado pela matriz solar, que confirmou sua posição como a maior fonte limpa em operação no mundo. Apenas esta categoria registrou uma expansão de 511 GW no ano de 2025, atingindo o patamar acumulado de 2.392 GW. Esse volume de novas instalações ofusca a expansão das fontes tradicionais baseadas em carbono.
A pesquisa da Irena indica que o aumento da capacidade das usinas movidas a combustíveis fósseis foi de apenas 116 GW no mesmo período. Com a disparidade de crescimento, a fatia das fontes limpas na capacidade total de eletricidade subiu de 46,3% para 49,4%. Para ilustrar o ritmo da transição energética, os dados apontam que 85,6% de toda a capacidade adicionada globalmente no último ano derivou de matrizes sustentáveis. Além disso, as instalações de energia eólica somaram 159 GW, elevando o total dessa fonte para 1.291 GW.
Diante do cenário de instabilidade no fornecimento de petróleo e gás, causado pelo conflito no Oriente Médio e pela guerra no Irã, especialistas apontam que as nações com parques renováveis robustos conseguiram se blindar melhor contra a crise. O diretor-geral da Irena, Francesco La Camera, destacou o peso dessa mudança estrutural.
“A crise no Oriente Médio, de certa forma, confirmou dramaticamente que a segurança energética não é algo que podemos garantir com combustíveis fósseis”
O mundo conseguirá atingir as metas climáticas até 2030?
Durante a cúpula climática COP28, realizada em Dubai no ano de 2023, mais de cem países firmaram o compromisso de triplicar a infraestrutura de energia renovável até o final desta década. O ritmo de crescimento anual subiu para 15,5% em 2025, superando a taxa de 15,1% registrada no ano anterior. Embora grupos do setor alertem que é necessário um avanço de 16,6% ao ano para cumprir o acordo de Dubai de forma exata, a agência internacional avalia o cenário com otimismo.
“Esses 700 gigawatts significam que podemos estar bem perto em 2030 da meta de triplicar, não exatamente o triplo, mas muito perto disso”
Apesar do balanço positivo global, o relatório expõe uma grave desigualdade regional na distribuição desses investimentos. A expansão não ocorre de forma homogênea, concentrando-se fortemente nas maiores economias do planeta. Os principais fatores de disparidade incluem:
- A concentração de 79,5% de toda a nova capacidade instalada em três polos principais: China, Estados Unidos e União Europeia.
- A participação ínfima do continente africano, que representou somente 1,6% de toda a expansão global no período.
- As barreiras políticas e econômicas, como a instabilidade dos mercados e o ceticismo inicial da administração de Donald Trump nos Estados Unidos.
Quais são os reflexos da crise energética na Europa?
O impacto das dificuldades na importação de petróleo e gás natural tem forçado governos europeus a repensarem suas estratégias emergenciais. Alguns países já implementaram restrições ao uso de combustíveis convencionais e eletricidade. O think tank Ember revelou que as matrizes sustentáveis geraram mais eletricidade do que o carvão em todo o mundo durante o primeiro semestre de 2025, fornecendo 34% da energia global.
Na Alemanha, a escassez de fornecimento reabriu debates que antes eram considerados tabus no país. A ministra da Economia, Katherina Reiche, defendeu publicamente a retomada das discussões sobre a energia nuclear para reduzir a dependência do gás natural importado.
“Podemos decidir que não estamos interessados. Então ficamos com o gás e nos tornamos mais dependentes de uma única fonte de energia. Ou podemos dizer que estamos interessados em tecnologia novamente”
Vale ressaltar que a capacidade instalada mede o potencial máximo de produção das usinas, mas a geração real costuma ser menor devido a paradas técnicas de manutenção ou, no caso das fontes eólica e solar, por limitações climáticas temporárias.