Uma crise de burnout levou Alessandra Moreira a reinventar sua carreira, aproximando-se da natureza em Altamira, uma das cidades mais impactadas pelo desmatamento na Amazônia. Lá, ela criou um negócio que transforma papel reciclado em folhas com sementes, que germinam em flores, ervas e até plantas nativas, unindo criatividade e sustentabilidade.
De acordo com informações do Mongabay Brasil, a iniciativa de Alessandra serve de inspiração para o empreendedorismo sustentável e representa o futuro da bioeconomia amazônica, onde inovação, inclusão e conservação florestal crescem juntas.
Altamira, no Pará, é o maior município do Brasil em área, superando países como Grécia e Portugal. No entanto, também enfrenta o desafio de ser um dos municípios com maior índice de desmatamento na Amazônia brasileira. Nesse contexto, Alessandra Moreira transformou suas dificuldades pessoais em um negócio promissor.
Após enfrentar sérios episódios de ansiedade e depressão, Alessandra deixou seu emprego como assistente administrativa. A sugestão de seu irmão para criar papel-semente foi o ponto de partida para a Ecoplante, empresa que produz papel reciclado com sementes incorporadas, que podem germinar vegetais, ervas e flores. O projeto, que começou como uma forma de cura pessoal, tornou-se um exemplo de harmonia entre criatividade, empreendedorismo e sustentabilidade em um dos ecossistemas mais frágeis do mundo.
O papel-semente é feito a partir de papel descartado, que é transformado em novas folhas com sementes. A polpa reciclada é misturada à água e espalhada sobre uma tela fina, onde as sementes são adicionadas. Após a secagem, o papel pode ser usado normalmente e, em vez de ser descartado, é plantado. Ao se decompor, libera as sementes, transformando o que seria lixo em vegetação.
## Como surgiu a ideia do papel semente?
Em 2023, Alessandra e seu irmão começaram a experimentar com sobras de papel reciclado e utensílios caseiros. Apesar das dificuldades iniciais, o processo trouxe foco e cura para Alessandra. “Eu não tinha mais tempo para chorar. Minha mente estava fixa em como produzir um papel melhor”, diz ela.
Mesmo enfrentando obstáculos como dificuldades financeiras e problemas de saúde, Alessandra persistiu e aprimorou o processo com a ajuda de tutoriais no YouTube. Nos primeiros meses, tudo era improvisado, mas ela não desistiu. “Eu queria que Altamira fosse conhecida por algo além do desmatamento”, afirma.
Atualmente, Alessandra e sua equipe produzem o papel manualmente no quintal de casa, utilizando equipamentos simples feitos com materiais do cotidiano. O papel reciclado é triturado, transformado em polpa e espalhado sobre uma tela para remover o excesso de água. As sementes são distribuídas manualmente ou com uma lata perfurada, garantindo uma distribuição uniforme antes de serem prensadas e secas ao sol.
## Qual foi o ponto de virada para a Ecoplante?
O ponto de virada para a Ecoplante ocorreu no início de 2024, quando Alessandra participou do programa Sustenta e Inova, financiado pela União Europeia para apoiar negócios sustentáveis na Amazônia. O programa a ajudou a entender o problema que seu negócio resolvia, que era o descarte inadequado de papel, e a se posicionar como um negócio verde.
No programa, ela aprendeu a precificar seus produtos, identificar clientes-alvo e apresentar sua empresa a investidores. Em agosto de 2025, a Ecoplante se tornou a primeira papelaria do Pará certificada como empresa sustentável.
Segundo Paula Couceiro, gerente de projetos do Sebrae Pará, a Ecoplante representa o tipo de inovação que a Amazônia precisa. “O objetivo é transformar a preservação ambiental em modo de vida”, diz. “Quando as pessoas veem que a sustentabilidade pode gerar renda e dignidade, elas deixam de ver a floresta como um obstáculo e passam a vê-la como oportunidade.”
## Quais são os desafios e próximos passos da Ecoplante?
A criatividade da Ecoplante vai além de rúcula e margaridas. O principal objetivo de Alessandra é produzir papel plantável com sementes de árvores nativas da Amazônia. Em parceria com grupos extrativistas da região, ela já conseguiu produzir papel com sementes de jambu, erva tradicional da culinária paraense. No entanto, suas tentativas com outras plantas, como o ipê, ainda não tiveram sucesso devido ao tamanho das sementes.
Para superar esse desafio, Alessandra criou o lápis-semente, que possui uma pequena cápsula na extremidade com sementes maiores.