As emissões brutas de gases de efeito estufa do Brasil caíram 16,7% em 2024, totalizando 2,145 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente (GtCO2e), segundo dados divulgados em 17 de março de 2026. A redução, a segunda maior da série histórica iniciada em 1990, está diretamente associada à queda do desmatamento, especialmente na Amazônia e no Cerrado. No entanto, um relatório do Observatório do Clima, uma rede que reúne dezenas de organizações da sociedade civil focadas na pauta ambiental, alerta que o país ainda corre risco de não cumprir sua meta climática para 2025, devido ao aumento das emissões em setores como energia e indústria e ao recorde de incêndios florestais registrado no ano passado.
De acordo com informações do Observatório do Clima, as emissões líquidas, que consideram o carbono absorvido por vegetações e áreas protegidas, ficaram em 1,489 bilhão de toneladas, uma queda de 22% em relação a 2023. Os dados são do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Apesar da redução geral, as emissões por mudança de uso da terra, ligadas ao desmatamento, recuaram 32,5%, enquanto todos os outros setores da economia registraram estabilidade ou alta.
Quais setores da economia ainda aumentaram suas emissões?
Enquanto o desmatamento diminuiu, outros setores mantiveram ou aumentaram sua contribuição para o aquecimento global. A agropecuária teve uma leve queda de 0,7%. Por outro lado, os setores de energia, processos industriais e resíduos apresentaram altas de 0,8%, 2,8% e 3,6%, respectivamente. O relatório destaca que o peso dos incêndios florestais de 2024 foi significativo, atingindo o maior nível da série histórica, com 241 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente (MtCO2e). Caso essas emissões fossem contabilizadas no inventário oficial, poderiam dobrar as emissões líquidas associadas à mudança de uso da terra.
O documento divide as emissões em cinco grupos econômicos principais:
- Agropecuária: 626 milhões de toneladas (MtCO2e) em 2024.
- Energia: 424 milhões de toneladas (MtCO2e).
- Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP): 94 milhões de toneladas (MtCO2e).
- Resíduos: 96 milhões de toneladas (MtCO2e).
- Mudança de Uso da Terra: responsável pela maior parte da redução geral.
Por que a meta climática do Brasil para 2025 ainda está em risco?
A projeção do Observatório do Clima indica que o Brasil deve perder por pouco a meta estabelecida na sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), que é o compromisso oficial de redução de emissões assumido pelo país no Acordo de Paris, para 2025. A estimativa é de que o país registrará 1,44 bilhão de toneladas de CO2 equivalente líquidas em 2025, número 9% maior do que a meta estipulada, que é de 1,32 bilhão de toneladas. Os pesquisadores entendem que são necessárias medidas adicionais, especialmente no controle de incêndios e na redução das emissões em setores como energia e indústria.
O relatório critica o foco quase exclusivo no controle do desmatamento como estratégia de mitigação. A análise é de que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão federal responsável pela fiscalização ambiental, acaba sendo o principal agente de redução de carbono, enquanto outros setores da economia precisam contribuir mais para que as próximas metas sejam atingidas. A coordenação técnica do SEEG é feita por quatro instituições: Ipam (mudança de uso da terra), Imaflora (agropecuária), Iema (energia e processos industriais) e ICLEI (gestão de resíduos).
Quais estados brasileiros mais emitem gases de efeito estufa?
Mesmo com a queda no desmatamento, os estados da Amazônia Legal tiveram emissões per capita comparáveis às de países ricos em 2024, devido à baixa população e alta emissão bruta. O líder foi o estado de Mato Grosso, com 60 toneladas de CO2 equivalente por habitante – valor quase três vezes maior que a emissão per capita da Arábia Saudita e mais de três vezes a dos Estados Unidos. No ranking das emissões brutas totais, os estados líderes em 2024 foram:
- Pará (278 MtCO2e)
- Mato Grosso (231 MtCO2e)
- Minas Gerais (190 MtCO2e)
- São Paulo (145 MtCO2e)
Em contraste, estados como São Paulo, Alagoas e Pernambuco registraram emissões brutas per capita menores do que a média mundial, que é de cerca de três toneladas de gás carbônico por habitante. Todos os biomas brasileiros tiveram queda de emissões, com exceção do Pampa, que registrou alta de 6%.
