Um novo episódio de El Niño nos próximos 12 a 18 meses pode elevar a temperatura média anual do planeta acima de 1,5 grau Celsius em relação ao nível pré-industrial e desencadear mudanças duradouras em padrões de calor, chuva e seca, segundo cientistas ouvidos em reportagem publicada em 25 de abril de 2026. O fenômeno é acompanhado com atenção por pesquisadores porque, em um mundo já aquecido pela ação humana, um evento forte no Pacífico tropical pode amplificar impactos climáticos em diferentes regiões do planeta.
De acordo com informações do Inside Climate News, projeções indicam que o Pacífico tropical caminha para um El Niño forte. A publicação relata que, somado ao aquecimento causado por gases de efeito estufa, esse quadro pode levar a alterações persistentes no sistema climático global.
O que está em jogo com um novo El Niño forte?
O El Niño é a fase quente de um ciclo entre oceano e atmosfera no Pacífico. Quando correntes oceânicas e ventos mudam periodicamente, grandes volumes de calor do oceano tropical se deslocam para leste a partir da chamada piscina quente do Pacífico ocidental, situada aproximadamente entre a Austrália e a Indonésia, e também em direção ao norte, até o Japão.
Quando esse calor se espalha pelo Pacífico equatorial, ele é liberado para a atmosfera em pulsos que alteram padrões meteorológicos, desviam correntes de vento em grandes altitudes, elevam temperaturas globais, provocam branqueamento de recifes de coral e afetam pescarias e ecossistemas marinhos. Em terra, os efeitos podem intensificar tempestades e enchentes em algumas áreas, ao mesmo tempo em que agravam calor extremo, seca e incêndios florestais em outras.
A reportagem também lembra que, em 2015, o calor vindo do Pacífico tropical ajudou a empurrar a temperatura média anual global de forma irreversível para além de 1 grau Celsius acima da linha de base pré-industrial. Já em 2024, a Terra registrou o ano mais quente da história observada, com reforço adicional de outro episódio de El Niño.
Por que os cientistas falam em mudanças duradouras?
Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista Nature Communications concluiu que eventos muito intensos, chamados de “super El Niños”, podem funcionar não apenas como episódios meteorológicos passageiros, mas como choques climáticos capazes de empurrar partes do sistema terrestre para novos estados. O artigo citado pela reportagem descreve essas mudanças como “climate regime shifts”, ou seja, alterações abruptas e persistentes em padrões de calor, chuva e seca.
“super El Niños” are not just passing weather events, but more like climate shocks that can push parts of the Earth system into new states
Segundo a definição mencionada no estudo, um super El Niño ocorre quando a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico tropical “exceeds 2 standard deviations above normal”. Para os autores, isso representa mais do que uma oscilação comum e deve ser visto como um sinal sistêmico de alerta.
O pesquisador Jong-Seong Kug, da Seoul National University, afirmou que os impactos se concentram em áreas sensíveis a conexões climáticas de longa distância e em regiões que já são propensas a mudanças de regime climático. A reportagem informa que existem apenas três super El Niños registrados: 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
Quais regiões podem sentir efeitos prolongados?
De acordo com o estudo citado, esses eventos contribuíram para mudanças em temperaturas oceânicas regionais e para ondas de calor marinhas sem precedentes, que destruíram ou danificaram recifes de coral e causaram mortalidade em massa e fome entre diversos organismos marinhos, de estrelas-do-mar a aves marinhas e mamíferos marinhos.
Os autores também identificaram áreas consideradas pontos críticos de mudança de regime nos oceanos e em terra. Entre os locais mencionados estão:
- Pacífico Norte central;
- oceano Índico sudeste;
- Pacífico sudoeste;
- Golfo do México;
- África Oriental;
- Continente Marítimo, na região entre os oceanos Índico e Pacífico;
- Ásia centro-sul;
- Austrália central;
- Amazônia;
- Groenlândia ocidental.
A reportagem destaca ainda que, em 2024, a combinação entre o El Niño no Pacífico tropical e o aquecimento provocado pela atividade humana secou grandes áreas da Amazônia, afetando meios de subsistência, deslocando pessoas e alterando o ciclo de carbono em algumas florestas, que passaram a emitir mais dióxido de carbono do que absorver e armazenar.
O planeta pode voltar a esfriar depois do fenômeno?
O cientista climático James Hansen disse ao Inside Climate News que mesmo um El Niño moderadamente forte nos próximos 12 a 18 meses poderia levar a temperatura média global a cerca de 1,7 grau Celsius acima do nível pré-industrial. Segundo a reportagem, Hansen avalia que o mundo talvez não volte de forma significativa para abaixo da marca de 1,5 grau Celsius depois que o fenômeno enfraquecer.
O texto pondera que ultrapassar esse limiar pode não significar uma ruptura instantânea, mas marcaria um ponto em que sistemas relativamente estáveis de florestas, água, chuva e temperatura começariam a sofrer mudanças rápidas. Como exemplos de impactos já observados abaixo de 1,5 grau Celsius, a reportagem cita reservatórios na Califórnia que em alguns anos deixam de encher e em outros transbordam com chuvas extremas, recifes branqueados da Austrália ao Caribe, megaincêndios florestais, calendários agrícolas desajustados e o aumento do calor noturno letal em cidades.
Com base nas informações reunidas pelo Inside Climate News, o alerta dos pesquisadores é que o próximo El Niño pode ser temporário como evento oceânico, mas seus efeitos podem durar muito mais tempo no sistema climático.