
O ecossistema de dunas em Fortaleza, capital do Ceará e quarta cidade mais populosa do Brasil segundo o IBGE, encontra-se reduzido a apenas 12% de sua cobertura original às vésperas do tricentenário da metrópole, marcado para a próxima semana, em 13 de abril de 2026. De acordo com informações da Eco Nordeste, a expansão urbana contínua e a especulação imobiliária são os principais fatores que impulsionaram a degradação ambiental ao longo dos séculos. Hoje, pesquisadores e movimentos socioambientais atuam diariamente para proteger os pequenos remanescentes de areia e vegetação nativa na costa cearense.
Como as dunas originais de Fortaleza foram impactadas pela urbanização?
Antes da colonização intensiva e do acelerado crescimento populacional, a paisagem da capital era dominada por vastos campos de areia móvel e lagoas interdunares que se estendiam por até oito quilômetros em direção ao interior do continente. Atualmente, os dados indicam uma redução drástica do território verde. A pesquisa científica de Maria Ligia Farias Costa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicada em julho de 2025, revela que restam apenas 6,3 quilômetros quadrados da área original de 52,2 quilômetros quadrados.
As áreas sobreviventes estão concentradas em regiões específicas, dependendo inteiramente de marcos legais de proteção e da constante vigilância popular. Entre os locais de resistência ecológica na metrópole estão:
- Área de Proteção Ambiental (APA) da Sabiaguaba e o respectivo Parque Natural Municipal.
- Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) Dunas do Cocó, que integra o ecossistema de um dos maiores parques urbanos da América Latina.
- Setores do litoral leste, incluindo a Praia do Futuro e a região da Cofeco.
- Dunas da Barra do Ceará.
Qual é a importância ecológica das dunas de Sabiaguaba e do Cocó?
A geógrafa e professora aposentada da Universidade Federal do Ceará (UFC), Vanda Claudino Sales, explica que a movimentação da areia é fundamental para a manutenção da zona costeira. Além de barrar o avanço do mar, esses espaços abrigam uma rica biodiversidade adaptada a condições extremas. Sobre a dinâmica natural de constante transformação, a especialista destaca a beleza do processo erosivo e construtivo impulsionado de forma ininterrupta pelos ventos.
É a natureza em ação; e essa dinâmica a gente só vê na beira do mar.
A pesquisadora relembra que, até o início dos anos 2000, liderou a Comissão do Meio Ambiente da Associação de Geógrafos Brasileiros na capital cearense, travando debates constantes contra a expansão imobiliária e órgãos governamentais. Segundo ela, esse processo de enfrentamento foi o que garantiu a salvação de uma fração do ecossistema. Ainda assim, Vanda Claudino Sales alerta que a sociedade em geral e os gestores públicos desconhecem o valor estrutural desses bancos de areia, muitas vezes tratando-os erroneamente como áreas sem utilidade que precisam ser pavimentadas ou alteradas para fins turísticos privados.
Por que os moradores e movimentos sociais assumiram a defesa ambiental?
O afastamento da população em relação ao próprio território é um dos obstáculos centrais para a conservação ecológica efetiva. Pedro Tavares, geógrafo e coordenador da campanha Fortaleza pelas Dunas, relata que só tomou conhecimento de que o bairro da Sabiaguaba pertencia administrativamente à capital cearense durante o período do ensino médio. O pesquisador afirma que o distanciamento físico e cultural das áreas naturais periféricas facilita a degradação estrutural, fator que o motivou a ingressar definitivamente no ativismo ambiental.
Eu não poderia ser o único que não sabia.
Movimentos populares organizados como o Coletivo Sabiá, além de povos tradicionais da Boca da Barra e da Casa de Farinha, articulam-se frequentemente para exigir o cumprimento rigoroso das leis ambientais. A APA da Sabiaguaba, instituída formalmente no ano de 2006, teve seu Plano de Manejo publicado apenas cinco anos depois, mas o documento diretivo nunca foi plenamente implementado pelas autoridades municipais competentes.
Em resposta à pressão da sociedade civil, a Prefeitura encomendou um novo diagnóstico territorial focado no ecossistema. No final de fevereiro de 2026, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) realizou reuniões para debater os resultados colhidos, mas a implementação efetiva de barreiras contra a especulação imobiliária ainda depende das conclusões oficiais do Plano Diretor Participativo e Sustentável. Enquanto as definições de zoneamento não são consolidadas politicamente, a rodovia estadual CE-010, importante eixo de escoamento e turismo no litoral leste que dividiu estruturalmente a Duna da Baleia, continua sofrendo invasões constantes da areia que tenta retomar seu curso natural levada pela força do vento.