A Coopamare, cooperativa de catadores instalada há 37 anos sob o Viaduto Paulo VI, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, recebeu uma notificação da Prefeitura de São Paulo para desocupar a área onde funciona. A medida foi informada em reportagem publicada nesta terça-feira, 22 de abril de 2026, e atinge uma entidade considerada a cooperativa de reciclagem em funcionamento mais antiga do Brasil. Segundo a cooperativa, a defesa administrativa já foi apresentada, enquanto os trabalhadores pedem a permanência no local ou a oferta de um galpão adequado para continuar as atividades.
De acordo com informações da Agência Brasil, a notificação tem como base um auto de fiscalização expedido em 18 de março. O documento aponta que a ocupação da área de 675 metros quadrados sob o viaduto seria irregular, por se tratar de espaço invadido. A permissão de uso do local havia sido revogada em 2023, sob a justificativa de proteção do bem público e alegação de risco de incêndio. Procurada pela reportagem original, a prefeitura não respondeu até o fechamento do texto.
Por que a Coopamare foi notificada para deixar a área?
A notificação foi emitida em 31 de março e fixou prazo de 15 dias para que a cooperativa apresentasse defesa. Segundo a reportagem, essa manifestação foi protocolada em 2 de abril. O processo administrativo se apoia na revogação da permissão de uso da área e no entendimento do poder público de que a ocupação é ilegal.
A área ocupada pela cooperativa fica sob o Viaduto Paulo VI, em Pinheiros. O espaço é usado há mais de três décadas pela entidade, que se tornou referência na organização de catadores e no trabalho de separação de materiais recicláveis na capital paulista.
O que diz a cooperativa sobre a possibilidade de mudança?
Segundo a presidente da Coopamare, Carla Moreira de Souza, houve diálogo anterior com a prefeitura após a revogação da permissão de uso em 2023. De acordo com ela, a cooperativa aceitou a possibilidade de transferência, desde que para um imóvel com condições adequadas de trabalho.
“Estamos aqui há 37 anos. Aceitamos ir para outro lugar, desde que seja um galpão onde tenhamos condições de continuar trabalhando. A prefeitura nos oferece outro viaduto, mas o espaço é pequeno e não dá para levar nossas coisas”
“Não queremos ir para outro viaduto. Nossa expectativa hoje é a de que ela nos deixe onde estamos ou arrume um galpão, na mesma região, para podermos trabalhar em paz, com todos os direitos que temos como trabalhadores”
A posição da cooperativa é de que uma eventual transferência só poderia ocorrer para um local capaz de manter a operação. No relato feito à Agência Brasil, a alternativa apresentada pelo poder público seria outro espaço sob viaduto, considerado insuficiente pela entidade.
Qual é a importância da Coopamare para a reciclagem e para os catadores?
A Coopamare recupera cerca de 100 toneladas de material reciclável por mês. O trabalho é feito por 24 cooperados e por cerca de 60 catadores autônomos, segundo os dados citados na reportagem. A cooperativa sustenta que sua atuação combina geração de renda, destinação correta de resíduos e apoio à inclusão social.
Em manifesto ligado a um abaixo-assinado pela permanência em Pinheiros, a cooperativa afirma que sua defesa representa o trabalho digno, o meio ambiente e a justiça social. O texto também sustenta que muitos trabalhadores passaram por situação de rua antes de encontrar na reciclagem uma forma de sustento.
“A Coopamare é um símbolo de luta, dignidade e sustentabilidade, construída por trabalhadoras e trabalhadores. Muitos estiveram em situação de rua, mas mudaram suas vidas e encontraram na reciclagem uma forma honesta de trabalho, contribuindo com a cidade”
No manifesto, a entidade também argumenta que presta um serviço essencial à região, ao fazer a separação e a destinação correta dos recicláveis. Entre os pontos destacados estão:
- redução da poluição;
- diminuição do volume de lixo enviado aos aterros;
- preservação ambiental;
- redução de custos públicos com coleta.
Quem apoia a permanência da cooperativa no local?
A Associação Nacional de Catadores/as de Materiais Recicláveis (Ancat) declarou apoio à Coopamare e afirmou que a entidade é a primeira cooperativa de catadores do Brasil, além de representar a história de organização da categoria. A associação também a descreveu como uma das pioneiras na consolidação da reciclagem com inclusão social.
Segundo a reportagem, também manifestaram apoio à cooperativa a Unicatadores e o Movimento Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis (MNCR). Para essas entidades, a discussão sobre a permanência da Coopamare no local envolve o reconhecimento de um trabalho considerado essencial para a cidade, e não apenas uma disputa por ocupação de espaço urbano.