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Condições em barco chinês de atum são alvo de denúncias após três mortes a bordo

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Três pescadores morreram durante uma mesma viagem no Tia Xiang 5, embarcação chinesa de pesca de atum ligada à Shandong Zhonglu Oceanic Fisheries, segundo relatos de tripulantes ouvidos pela Environmental Justice Foundation. Os depoimentos descrevem jornadas de 16 horas, alimentação considerada inadequada, suspeitas sobre a qualidade da água e ausência de atendimento médico apropriado no Oceano Índico, entre fevereiro de 2025 e o retorno do navio a Singapura. De acordo com informações do Guardian Environment, os trabalhadores afirmam que colegas adoeceram progressivamente antes das mortes.

O caso foi relatado a partir de testemunhos de integrantes da tripulação e de materiais verificados pela EJF, organização que afirma ter cruzado vídeos, detalhes do navio e registros dos pescadores. Um dos tripulantes, Abdul, de 36 anos, disse que começou a passar mal em fevereiro de 2025, quatro meses após embarcar em seu primeiro trabalho em um espinhel de atum no Oceano Índico. Segundo ele, outros trabalhadores apresentaram sintomas semelhantes, como inchaço nos membros, dores, fraqueza intensa e falta de ar.

O que os tripulantes relataram sobre as condições a bordo?

Abdul afirmou que os pescadores do Tia Xiang 5 não receberam cuidados médicos adequados nem descanso das jornadas extenuantes. Ele disse que a tripulação era alimentada com peixe usado como isca, descrito como não fresco e de gosto ruim, além de receber poucos vegetais. Também relatou desconfiança em relação à água potável produzida a bordo a partir da água do mar, que, segundo ele, ficava salgada demais quando a máquina apresentava falhas e, em alguns momentos, tinha coloração amarela ou aspecto sujo.

De acordo com os depoimentos reunidos pela EJF, os sintomas observados nos trabalhadores são típicos de beribéri, doença causada por deficiência de vitamina e frequentemente associada, segundo a organização, a dietas insuficientemente nutritivas entre pescadores migrantes. A reportagem original informa que três trabalhadores, entre eles dois filipinos e um indonésio, morreram no navio durante a mesma viagem, todos após doenças não diagnosticadas.

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Como ocorreu a primeira morte narrada pelos colegas?

O primeiro a morrer, segundo os relatos, foi Isko, um pescador filipino. Abdul disse que ele contestou o capitão e declarou não ter condições de continuar trabalhando. Ainda segundo os tripulantes, Isko teria sido isolado dos demais e obrigado a dormir no convés, protegido apenas por uma lona contra chuva e sol forte. Joko, de 34 anos, amigo de Abdul, afirmou que não havia cama, apenas cobertores, e que Isko não pôde retornar aos alojamentos por quatro dias.

Os colegas também disseram que, apesar dos pedidos feitos pelo pescador doente, o capitão não retornou ao porto nem permitiu que ele voltasse para casa. Joko afirmou que Isko morreu quatro dias depois. Após a morte, os tripulantes disseram ter improvisado um caixão com pallets de madeira, envolvido o corpo em um cobertor e colocado a estrutura no freezer da embarcação.

“Durante aqueles oito meses, apesar de virmos de países diferentes, estávamos juntos”, disse Abdul, segundo a reportagem. “Quando meus amigos me deixaram, fiquei triste. Chorei.”

Que evidências foram citadas pela Environmental Justice Foundation?

A EJF afirmou ter obtido um vídeo mostrado ao Guardian no qual aparece um homem morto, identificado por tripulantes como Isko, deitado em um corredor. Segundo a organização, a gravação foi verificada por meio do cruzamento com outras imagens do navio e da tripulação, incluindo uma boia com a inscrição “Tia Xiang 5”. A filmagem, de acordo com a reportagem, também mostra trabalhadores seguindo com as atividades de pesca abaixo do convés.

Depois da primeira morte, segundo os relatos, o medo se espalhou entre os trabalhadores doentes. A embarcação só teria retornado a Singapura após um terceiro pescador piorar, mas esse tripulante morreu no trajeto, de acordo com pessoas ouvidas pela EJF. Abdul relatou que desembarcou com uma das pernas inchada “como a pata de um elefante”, precisou usar cadeira de rodas no aeroporto de Singapura e foi hospitalizado ao chegar a Jacarta, onde recebeu tratamento para doença linfática.

  • Abdul disse que trabalhou por oito meses no mar.
  • Segundo ele, a jornada era de 16 horas por dia.
  • O salário mensal informado foi de 4,6 milhões de rupias indonésias.
  • Após descontos, incluindo 6,5 milhões de rupias por tratamento hospitalar, ele afirmou ter recebido 11,9 milhões de rupias pelo período total.

Qual é o impacto do caso para o mercado internacional de pescado?

Steve Trent, CEO e fundador da EJF, classificou a situação descrita no Tia Xiang 5 como um caso “injustificável” de negligência extrema contra trabalhadores. Segundo ele, o pescado capturado por essa tripulação pode ter entrado em mercados como União Europeia, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido, já que a empresa teria acesso licenciado a esses destinos. A organização defende que Reino Unido e outros países apoiem uma Carta Global de Transparência.

“Esta é uma situação brutal, mas a triste realidade é que ela é muito típica do que está acontecendo em toda a frota chinesa de águas distantes”, disse Steve Trent.

A reportagem também cita dados da Coalition for Fisheries Transparency segundo os quais o Reino Unido recebe cerca de 1.000 certificados de captura por ano da China, equivalentes a uma média de aproximadamente 58 mil toneladas de frutos do mar. Ainda segundo a coalizão, apesar do histórico grave da frota em pesca ilegal e abusos trabalhistas, o país recusou apenas quatro carregamentos de frutos do mar chineses desde 2012.

Ben Harkins, especialista técnico da Organização Internacional do Trabalho, afirmou que o problema é um grande desafio global e que o ponto de partida é estabelecer uma estrutura legal sobre condições de trabalho. A reportagem observa ainda que, com exceção da Tailândia, a convenção da OIT sobre trabalho na pesca não foi ratificada amplamente no Sudeste Asiático.

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