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Boias no Rio Grande avançam sem estudos públicos e preocupam comunidades na fronteira

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Boias metálicas flutuando sobre o Rio Grande, com vegetação e margens ao fundo sob céu claro.
Foto: Autor / Flickr (CC BY)

A instalação de boias industriais no Rio Grande, em Brownsville, no Texas, avança como parte de um projeto federal dos Estados Unidos para impedir travessias não autorizadas pela fronteira com o México. A iniciativa, retomada no segundo governo Trump e já em execução em março de 2026, prevê centenas de milhas de barreiras flutuantes no rio. Especialistas e moradores de áreas afetadas afirmam que faltam estudos ambientais e modelagens de cheias divulgados ao público, enquanto crescem alertas sobre risco de enchentes, alteração do curso do rio e impactos sobre comunidades locais. Embora seja um tema localizado na fronteira sul dos EUA, a obra tem relevância mais ampla por envolver gestão de rios internacionais, política migratória e possíveis disputas diplomáticas com o México, assuntos que costumam repercutir no debate regional sobre fronteiras e meio ambiente.

De acordo com informações da Inside Climate News, empreiteiras estão instalando um trecho de 17 milhas de boias cilíndricas no rio, o primeiro segmento de um plano federal de 536 milhas que se estenderia do Golfo do México ao sul do Texas. Isso equivale a cerca de 27 quilômetros no trecho inicial e aproximadamente 863 quilômetros no plano total. O Departamento de Segurança Interna dos EUA dispensou exigências de leis ambientais e firmou contratos superiores a US$ 1 bilhão com empresas privadas para a implementação do sistema.

Cada boia, segundo a reportagem original, tem mais de 12 pés de comprimento e entre quatro e cinco pés de diâmetro. Em medidas mais familiares ao público brasileiro, isso representa mais de 3,6 metros de comprimento e algo entre 1,2 e 1,5 metro de diâmetro. As agências federais, porém, não tornaram públicos estudos de impacto ambiental nem simulações hidrológicas sobre os efeitos da estrutura. Para especialistas ouvidos pela publicação, a ausência dessa documentação é especialmente grave diante da escala da obra e do fato de o Rio Grande ser um rio dinâmico, sujeito a mudanças de vazão, assoreamento e enchentes.

Por que o projeto das boias gera preocupação entre especialistas e moradores?

Mark Tompkins, geomorfólogo que estuda o fluxo dos rios e analisou as boias para um grupo contrário ao projeto, afirmou que a falta de documentação pública viola o que chamou de padrão profissional básico de cuidado para empreendimentos dessa magnitude. Já o gerente municipal de Laredo, uma das cidades onde as boias estão previstas, disse que a administração local tenta obter informações de engenharia e desenho junto às agências federais.

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Especialistas consultados pela Inside Climate News disseram não conhecer projeto comparável em um rio dinâmico em qualquer parte do mundo. Entre os riscos apontados estão a aceleração das águas durante enchentes, o acúmulo de sedimentos e a formação de novos relevos no leito do rio. Segundo esses alertas, essas mudanças poderiam inclusive abrir disputas com o México por causa de tratados relacionados ao curso do rio. O Rio Grande, chamado de Río Bravo no México, integra a fronteira entre os dois países em longos trechos, o que dá à discussão também uma dimensão diplomática.

  • Possível intensificação de enchentes em áreas já vulneráveis
  • Alteração do canal do rio por acúmulo de sedimentos
  • Restrição de acesso para navegação, pesca e lazer
  • Falta de estudos públicos sobre impacto ambiental e hidráulico

Elsa Hull, ativista ambiental e moradora do condado de Zapata, área próxima ao trajeto proposto das boias, criticou o plano.

“Este é um experimento em escala continental.”

Ela também afirmou:

“Nada disso é baseado em bom senso ou ciência.”

O que dizem as autoridades dos Estados Unidos sobre a segurança da estrutura?

Em resposta à reportagem, um porta-voz da Customs and Border Protection, a CBP, disse que as exigências de projeto estabelecem que as barreiras resistam a um evento de enchente com recorrência de 100 anos, em linha com os padrões adotados pelo órgão. Segundo o representante, as estruturas também foram concebidas para suportar aumento de correnteza e elevação do nível da água, com o objetivo de manter a operação durante eventos climáticos extremos.

Apesar disso, o porta-voz não forneceu informações técnicas detalhadas sobre esses padrões de projeto. Essa recusa é um dos pontos centrais da crítica feita por pesquisadores, gestores locais e defensores do meio ambiente, que pedem acesso a dados concretos para avaliar os efeitos das boias sobre o rio e as cidades da fronteira.

Como o projeto se expandiu no segundo governo Trump?

A ideia de usar barreiras flutuantes na fronteira surgiu ainda no primeiro governo Trump. Em 2020, o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos buscou propostas para um sistema de boias, mas a medida não foi implementada antes do fim daquele mandato. O tema voltou em julho de 2023, quando o estado do Texas instalou mil pés de boias no Rio Grande em Eagle Pass, o que provocou disputa diplomática com o México e uma ação judicial movida pelo governo federal dos EUA. Mil pés correspondem a cerca de 305 metros.

Segundo a reportagem, as boias usadas em Eagle Pass eram diferentes das agora instaladas pelo governo federal, pois tinham formato esférico, segmentos e lâminas serrilhadas. A controvérsia em torno daquele caso não impediu a ampliação do plano após o retorno de Donald Trump à Presidência em 2025. Em 3 de julho de 2025, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, dispensou a aplicação de mais de 30 leis federais em uma área de 20 milhas ao longo do Rio Grande, no condado de Cameron, para acelerar o chamado Waterborne Barrier Project. A área mencionada equivale a cerca de 32 quilômetros.

Entre as normas dispensadas, a Inside Climate News cita a National Environmental Policy Act, a Endangered Species Act, a Migratory Bird Conservation Act e a Safe Drinking Water Act. Em outubro de 2025, segundo a reportagem, o governo também dispensou regras de contratação e compras ao longo de toda a fronteira entre Estados Unidos e México para acelerar as obras.

No documento citado pela publicação, Noem justificou a medida afirmando que existe uma lacuna de capacidade em cursos d’água na fronteira sudoeste, onde ocorrem contrabando de drogas, tráfico humano e outras atividades ilegais. Ao mesmo tempo, a reportagem registra que o número de travessias não autorizadas caiu de forma acentuada.

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