A Europa acelerou a expansão da sua capacidade de produção de biometano entre os anos de 2024 e 2025 para reduzir a dependência de gás natural importado e fortalecer a sua segurança energética. Diante da escalada de tensões geopolíticas no Irã e dos desdobramentos contínuos da guerra na Ucrânia, o continente aposta na transição energética para blindar sua economia contra as oscilações dos preços internacionais. De acordo com informações do Valor Empresas, o movimento consolida os gases renováveis como uma prioridade estratégica regional.
Durante este período recente, 130 novas usinas entraram em operação, elevando o total do continente para 1.678 unidades. Os dados constam no Mapa Europeu de Biometano, um levantamento elaborado conjuntamente pela European Biogas Association (EBA) e pela organização Gas Infrastructure Europe. Somando a produção de biogás, o território europeu já concentra quase 50% de toda a fabricação global deste tipo de combustível sustentável.
Qual é o principal objetivo da Europa com a expansão do biometano?
A meta fundamental ultrapassou a pauta estritamente ambiental e tornou-se uma questão de sobrevivência econômica.
“Já não é uma questão de mudança climática, é uma questão de segurança econômica e energética e de defesa do nosso modelo de vida”
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A afirmação é de Gonzalo Escribano, diretor do programa de energia e clima do Real Instituto Elcano, da Espanha. Para estruturar essa independência, a Comissão Europeia definiu o objetivo de alcançar a marca de 35 bilhões de metros cúbicos de biogás e biometano por ano até o fim da atual década.
Atualmente, a capacidade instalada da região se aproxima de sete bilhões de metros cúbicos anuais, com uma produção efetiva que ronda os cinco bilhões de metros cúbicos. Este volume representa praticamente o dobro do que foi registrado no ano de 2021. Somados, o biogás e o biometano atingem cerca de 22 bilhões de metros cúbicos, o que equivale a uma fatia entre seis a sete por cento de todo o consumo de gás natural da União Europeia.
Como os países europeus estão estruturando suas produções?
A expansão ocorre de forma descentralizada, com diferentes países adotando modelos distintos de incentivo e produção. De acordo com a porta-voz da EBA, Angela Sainz Arnau, a estratégia é clara:
“O biometano está desempenhando um papel crescente na redução da dependência do gás importado, contribuindo tanto para a segurança energética quanto para a descarbonização”
A representante ressalta que, para atingir a meta de 2030, será necessário acelerar o ambiente regulatório e transformar o potencial técnico em projetos concretos de escala industrial.
Entre as principais nações que lideram este movimento logístico e de infraestrutura, destacam-se estratégias variadas:
- A Alemanha atua como o principal polo do continente, possuindo mais de 10 mil plantas de biogás e cerca de 185 unidades de biometano, impulsionadas por políticas de conversão de instalações antigas.
- A França lidera a conexão de novas unidades à rede elétrica nacional, utilizando contratos regulados e metas fixas de injeção.
- A Itália baseia seu avanço na demanda direta, fornecendo incentivos voltados especificamente para o uso dos gases renováveis no setor de transportes.
- A Dinamarca foca na eficiência produtiva e na integração total ao sistema energético, purificando resíduos orgânicos para injetar o gás diretamente na rede existente.
Quais são os desafios ambientais desta transição energética?
Apesar da grande vantagem de o biometano poder ser injetado nas redes atuais de gás natural — com um aumento de injeção de 13,4% nos últimos dois anos, segundo Piotr Kus, diretor-geral da Rede Europeia de Operadores de Redes de Transporte de Gás —, existem preocupações estruturais no longo prazo. O combustível é visto como uma saída viável para setores complexos de eletrificar, destinando 78% de sua produção europeia para veículos de carga pesada e 17% para o transporte marítimo.
Contudo, organizações de preservação ambiental alertam para os riscos do modelo adotado. Luc Powell, analista sênior de políticas de qualidade do ar e agricultura do European Environmental Bureau, aponta que a base da produção pode gerar distorções severas na matriz do continente.
“Há um risco real de que a União Europeia fique presa a um sistema que incentiva o crescimento insustentável da pecuária intensiva”
Segundo o especialista, o receio central é que a busca desenfreada por dejetos para produzir biometano acabe estimulando o aumento da produção pecuária em larga escala. Esse cenário colocaria em risco parte significativa dos ganhos ecológicos propostos pela adoção do combustível renovável, gerando um impasse na estratégia ambiental da Europa.