
A ariranha foi incluída na lista da Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU, em decisão aprovada na 15ª Conferência das Partes da CMS, encerrada em 29 de março de 2026, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A CMS é a sigla em inglês para a Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres, tratado internacional ligado à ONU. A medida abre caminho para ações internacionais de conservação da espécie, cuja população, segundo o documento que embasou a proposta, caiu 50% nos últimos 25 anos. De acordo com informações da Mongabay Brasil, a decisão busca ampliar a cooperação entre países para proteger a espécie e os ecossistemas aquáticos da Amazônia e do Pantanal.
A ariranha, de nome científico Pteronura brasiliensis, é o maior tipo de lontra do mundo e hoje tem populações restritas à Amazônia e ao Pantanal, dois dos principais biomas ligados à disponibilidade de água doce na América do Sul. Antes, sua distribuição alcançava bacias de quase toda a América do Sul. Se no passado a caça para o comércio de peles era a principal pressão, atualmente a perda e a fragmentação do habitat, além da poluição dos rios, aparecem como as maiores ameaças à sobrevivência do animal.
Por que a inclusão da ariranha na lista é relevante?
A nova classificação eleva o nível de atenção internacional sobre a espécie. Pesquisadores e organizações ambientalistas pressionaram governos signatários da convenção para que a ariranha fosse reconhecida como um animal que necessita de ações urgentes de conservação. A espécie já consta como em perigo de extinção na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN.
Mesmo sem realizar uma migração clássica ligada à reprodução ou à alimentação sazonal, a ariranha ocupa extensos territórios ao longo de rios da Amazônia e do Pantanal. Quando há conexão aquática, pode se deslocar por rios transfronteiriços, o que justifica a necessidade de coordenação entre países. Nesse contexto, a perda de conectividade das bacias hidrográficas é apontada como uma das ameaças centrais.
O que os estudos apontam sobre a situação da espécie?
O documento usado para sustentar a proposta informa uma redução de 50% da população nos últimos 25 anos. Também foram observados indivíduos menores, o que, segundo o texto original, indica diminuição na taxa de sobrevivência dos filhotes. Além disso, projeções climáticas associadas à redução de precipitação sugerem que a tendência de queda populacional pode continuar nas próximas décadas.
Como predadora de topo de cadeia, a ariranha se alimenta de peixes e tem na onça-pintada seu único predador citado no texto. Sua presença é tratada por pesquisadores como um indicativo de equilíbrio ecológico dos ambientes aquáticos. Por isso, a proteção da espécie também é vista como uma forma de preservar a integridade dos rios e de outras espécies que dependem desses ecossistemas.
“Costumamos dizer que a ariranha é a sentinela dos rios, pois sua presença significa a saúde dos ecossistemas”, diz a bióloga Caroline Leuchtenberger, criadora do Projeto Ariranhas e coordenadora do grupo de lontras da IUCN.
Quais desafios permanecem para a conservação da ariranha?
Um dos desafios apontados é aprofundar o trabalho com comunidades que vivem próximas ao habitat da espécie. Segundo a reportagem, ainda persiste a imagem de que a ariranha é um animal agressivo. A convivência entre humanos e populações do mamífero, especialmente em áreas da Amazônia e do Pantanal, ainda não ocorre de forma harmoniosa em muitas regiões.
O texto também registra que a espécie é vista como competidora por pescadores. Esse fator ajuda a explicar parte da resistência à presença do animal em territórios ocupados por atividades humanas. A percepção social sobre a ariranha, portanto, aparece como um elemento importante para qualquer estratégia de conservação de longo prazo.
“Todas as outras espécies que dependem da integridade destes rios vão se beneficiar de um maior esforço de conservação das ariranhas”, enfatiza a pesquisadora.
“A ararinha não é um bicho invisível”, pontua Leuchtenberger. “Quando ela está por perto, ela sempre é notada.”
Como foi aprovada a proposta e quais são os próximos passos?
A proposta partiu da França, já que a ariranha está presente na Guiana Francesa, território ultramarino do país europeu na América do Sul. Além do Brasil, a iniciativa recebeu apoio de outros países da América do Sul e foi aprovada sem oposição no plenário da convenção.
Pelo grau de ameaça, a espécie foi incluída nos dois anexos da CMS:
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Apêndice I: para espécies em perigo ou criticamente em perigo de extinção, com necessidade de ações rigorosas dos Estados-membros.
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Apêndice II: voltado ao incentivo da cooperação entre países para medidas conjuntas de conservação.
Após a inclusão, o próximo passo será buscar um plano de ação coordenado entre os países envolvidos. Segundo a reportagem, esse plano só poderá ser aprovado em uma próxima conferência da CMS, prevista para ocorrer na Alemanha daqui a três anos.
“A inclusão da ariranha tanto no Apêndice I quanto no Apêndice II da CMS enviará um sinal claro de que é necessária uma ação internacional urgente e coordenada para conservar essa espécie e os ecossistemas de água doce dos quais ela depende”, afirmou Susan Lieberman, vice-presidente de Política Internacional da Wildlife Conservation Society.