Um relatório de 440 páginas publicado em 20 de março de 2026 por um grupo de especialistas da Entso-E concluiu que o apagão que interrompeu o fornecimento de energia na Espanha continental e em Portugal em 28 de abril de 2025 teve como causas principais falhas sistêmicas no controle de tensão, na gestão de potência reativa e no ambiente regulatório. A Entso-E é a rede europeia que reúne operadores de sistemas de transmissão de energia elétrica. O documento também distribui responsabilidades entre a Red Eléctrica, operadora do sistema elétrico da Espanha, usinas convencionais e renováveis e o marco regulatório sob o qual esses agentes operavam. De acordo com informações da PV Magazine, a sequência de eventos levou à perda de sincronismo entre os sistemas espanhol e português e a rede europeia.
Embora o episódio tenha ocorrido na Península Ibérica, o tema é relevante para o Brasil porque envolve a operação de sistemas elétricos com participação crescente de fontes renováveis, além de questões de estabilidade e resposta da rede diante de oscilações. O sistema brasileiro tem características próprias e é operado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mas discussões sobre controle de tensão, potência reativa e proteção também fazem parte da gestão de redes de grande porte.
Segundo o relatório, equipamentos essenciais de controle de tensão eram conectados e desconectados manualmente, o que reduziu a velocidade de resposta do sistema. Os operadores também não tinham monitoramento em tempo real da diferença entre a potência reativa exigida pela rede e a efetivamente fornecida pelos geradores. Em momentos críticos, várias usinas convencionais entregaram menos de 75% do nível de potência reativa solicitado pelo operador do sistema.
Como as usinas renováveis contribuíram para a sequência do apagão?
O documento aponta que instalações renováveis também participaram da cascata de falhas. Muitas operavam com esquemas de fator de potência fixo, o que limitava a capacidade de reação às oscilações de tensão. Além disso, um número relevante de unidades se desconectou automaticamente antes de atingir os limiares de tensão previstos em seus pontos de conexão à rede. Em alguns casos, as proteções contra sobretensão estavam configuradas abaixo dos limites regulatórios.
A sequência ocorreu em poucos segundos. Entre 12h32min00s e 12h32min48s do dia do apagão, a geração de grandes usinas renováveis na Espanha, com capacidade acima de 5 MW, caiu cerca de 500 MW. Às 12h33min16s, desconexões na região de Badajoz retiraram 727 MW de geração fotovoltaica e solar concentrada. Nos dois segundos seguintes, outros 928 MW foram desligados em cinco províncias. Ao todo, mais de 2,5 GW de geração foram perdidos, com tensões acima de 435 kV. Às 12h33min19s, os sistemas espanhol e português perderam o sincronismo com a rede europeia. Os mecanismos automáticos de alívio de carga e defesa, acionados entre 12h33min19s e 12h33min22s, não conseguiram evitar o colapso.
Quais limitações afetaram a investigação técnica?
A Entso-E afirmou que a apuração foi prejudicada por dados incompletos. Operadores de sistemas de distribuição não tinham acesso aos dados reais de produção de geradores com menos de 1 MW, principalmente sistemas solares em telhados. Além disso, vários proprietários de unidades de geração alegaram ausência de registros de falha para justificar a impossibilidade de fornecer informações sobre desconexões ocorridas antes do apagão.
O relatório informa ainda que dois fabricantes de inversores entregaram dados agregados de forma voluntária. Mesmo assim, as lacunas de informação impediram o grupo de especialistas de determinar a causa de parte das desconexões registradas durante o evento.
Quais recomendações foram feitas para evitar novos apagões?
As 22 recomendações do relatório estão organizadas em quatro áreas:
- controle de tensão e potência reativa;
- estabilidade oscilatória;
- comportamento de desconexão;
- defesa e restauração do sistema.
No campo do controle de tensão, a Entso-E defende a disponibilidade de recursos suficientes de potência reativa, melhora da visibilidade em tempo real e a substituição de esquemas de fator de potência fixo por controle ativo de tensão. O grupo também recomenda harmonizar as faixas operacionais de tensão na Europa entre 380 kV e 420 kV.
Sobre as desconexões, o documento propõe revisar ajustes de proteção e reforçar exigências de suportabilidade a sobretensões, especialmente para a geração de menor porte. Na frente de defesa e restauração, a recomendação é adotar esquemas adaptativos de alívio de carga e ampliar a coordenação entre operadores. Em todas as áreas, o relatório pede estruturas padronizadas de coleta de dados para garantir que futuras investigações tenham acesso a registros completos e consistentes.